{"id":1058,"date":"2014-12-04T12:13:37","date_gmt":"2014-12-04T11:13:37","guid":{"rendered":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=1058"},"modified":"2015-01-29T21:38:49","modified_gmt":"2015-01-29T20:38:49","slug":"caminhos-de-atravesamento-yann-beauvais-e-o-cinema-experimental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=1058","title":{"rendered":"Caminhos de atravesamento  -yann beauvais e o cinema experimental- (Pt)"},"content":{"rendered":"<p>por Ma do Carmo Nino* em<em> yb150213 40 anos de cinemativismo<\/em>, organizado por Edson Barrus, B3, Recife, Novembro 2014<\/p>\n<p>N\u00e3o contemplamos o mundo de fora, como se assist\u00edssemos a um espet\u00e1culo na plateia. Os discursos e o Discurso cruzam-se na psique. Acontecemos e fazemos acontecer. Nosso fazer repercute e somos afetados pelo alheio fazer (&#8230;) Organizando, organizamo-nos, entretecidos que somos .\u00a0Donaldo Sch\u00fcler<\/p>\n<p>A verdade na arte \u00e9 a uni\u00e3o da coisa com ela mesma, o exterior tornando-se a express\u00e3o do interior, a alma revestida de forma humana, o corpo e seus instintos unidos ao esp\u00edrito. Oscar Wilde<\/p>\n<p>\u00c9 chegado o momento para Yann Beauvais de celebrar quarenta anos de uma trajet\u00f3ria que est\u00e1 enfaticamente desde o seu in\u00edcio, centralmente permeada pela pluralidade do cinema experimental. Considerado por alguns de seus estudiosos, praticantes e defensores, como o verdadeiro cinema, \u00e9 aquele que guarda o esp\u00edrito da aventura, da poeticidade e da inquieta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica que deveriam presidir as manifesta\u00e7\u00f5es em arte. Esta n\u00edtida e constante afinidade eletiva do artista franc\u00eas radicado no Brasil desde 2011, emerge pontualmente e com regularidade atrav\u00e9s de suas pr\u00f3prias incurs\u00f5es na pr\u00e1tica art\u00edstica com filmes e v\u00eddeos, na defesa deste meio de express\u00e3o atrav\u00e9s da sua difus\u00e3o, assim como do coment\u00e1rio e da an\u00e1lise cr\u00edtica dos trabalhos de outros artistas, em v\u00e1rios continentes e tamb\u00e9m pela curadoria e organiza\u00e7\u00e3o de exposi\u00e7\u00f5es, palestras, eventos em prol da propaga\u00e7\u00e3o desta op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e da sensibiliza\u00e7\u00e3o dirigida \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o de um p\u00fablico acostumado em sua maioria a um cinema de cunho mais comercial1. Ao receber o convite para refletir sobre este momento que podemos considerar, com justi\u00e7a, importante no encaminhamento privilegiado por Yann, n\u00e3o pude me furtar ao fato de que refletir sobre este exerc\u00edcio em todas as suas facetas implicava necessariamente em considera-las n\u00e3o como atividades paralelas individualizadas, mas como uma tessitura complexa nos quais os elementos constituintes interagem entre si influenciando \u2013 se em novos elementos. Refletir sobre esta linguagem, sua historicidade, assim como das condi\u00e7\u00f5es de difus\u00e3o, recep\u00e7\u00e3o, e sobre alguns dos artistas que como ele pr\u00f3prio abra\u00e7aram esta forma de express\u00e3o, colocando-se como apreciador, leitor e analista de suas obras, revela inclusive bastante \u2013 e n\u00e3o poderia se dar de outra forma &#8211; sobre quest\u00f5es que se encontram presentes em seu pr\u00f3prio trabalho como cineasta. S\u00e3o estes, portanto, os seus caminhos de atravesamento, e o que constituir\u00e1 o fio condutor que nos guiar\u00e1 neste passeio. N\u00e3o seria demais evocar aqui que, como Kristeva nos lembra, a prop\u00f3sito do ato de ler, h\u00e1 desde sempre2 indiscutivelmente, uma postura ativa, uma atitude reativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura, por parte daquele que a efetiva que se traduz como fundamentalmente apropriadora. Mais do que isto, longe de considerar que o cinemativismo de Yann como artista, curador independente, cr\u00edtico, homem de palavras e imagens, signos verbais e n\u00e3o verbais, repercutem entre si e se retroalimentam, associar este fato \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o humana de estarmos todos inseridos em um tipo de rede, nos entreglosando e nos constituindo enquanto seres, formando e sendo formados por esta conviv\u00eancia e\/ou contato. Afinal, como vislumbrado na ep\u00edgrafe deste texto, o espa\u00e7o entre o sujeito e o mundo (objeto) poderiam ser vistos a partir da espacialidade m\u0153biana3, onde apenas aparentemente haveria distin\u00e7\u00e3o entre limites entre n\u00f3s e o mundo. O contato inicial que estabeleci com Yann, se deu atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de palestras4 que ele apresentou em 2013 com o incentivo do Funcultura e o apoio da Diretoria de Mem\u00f3ria, Educa\u00e7\u00e3o, Cultura e Arte da Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco (FUNDAJ), al\u00e9m de eventos e encontros que vem realizando no espa\u00e7o B3 (do qual ele \u00e9 co-fundador com o tamb\u00e9m artista Edson Barrus), sendo que a minha incurs\u00e3o pelas singularidades das diversas formas de abordagem praticadas no que denominamos de cinema experimental se estendeu um pouco em seguida, no processo de tradu\u00e7\u00e3o de alguns de seus textos sobre artistas e sobre obras experimentais no cinema5, onde ele disserta inclusive sobre alguns importantes criadores que, no processo da minha forma\u00e7\u00e3o em artes visuais, n\u00e3o se encontravam referenciados com frequ\u00eancia ou mesmo n\u00e3o haviam nem sido evocados. N\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o totalmente sem apreens\u00e3o que eu me coloco no limiar de uma experi\u00eancia que embora gratificante para mim, \u00e9 desafiadora, uma vez que tanto a longa e prol\u00edfica produ\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica como a sua produ\u00e7\u00e3o f\u00edlmica constituem um est\u00edmulo a ser explorado e vivenciado gradativamente. Situando (-me) um pouco (n)a hist\u00f3ria do cinema experimental&#8230; A pr\u00f3pria trajet\u00f3ria do cinema experimental aponta que um dos elementos que contribuem para sua rarefeita visibilidade e situa\u00e7\u00e3o que o coloca \u00e0 margem dos estudos de cinema e tamb\u00e9m da hist\u00f3ria da arte, que \u00e9 a falta de precis\u00e3o acerca do conceito que o define enquanto g\u00eanero. Se o car\u00e1ter do que \u00e9 experiment\u00e1vel aponta para a ideia de busca, de pesquisa, de laborat\u00f3rio, de processo, ou mesmo de inacabado, vinculando-se a sua etimologia latina (experimentalis), se alia tamb\u00e9m \u00e0 ideia de experi\u00eancia, ao qual parece associar-se com frequ\u00eancia6. Antes que o termo experimental se constitu\u00edsse em maioria das atribui\u00e7\u00f5es, outras designa\u00e7\u00f5es como , , , , , , tamb\u00e9m foram utilizadas para referir-se a este tipo de produ\u00e7\u00e3o. Esta variabilidade pode em parte indicar um determinado estado de coisas, como por exemplo, a refer\u00eancia ao mercado (cinema independente, marginal, underground), ou mesmo a hibridiza\u00e7\u00e3o com outros meios de express\u00e3o como as artes pl\u00e1sticas, por exemplo, como no caso das instala\u00e7\u00f5es (expanded cinema ou cinema ampliado). Esta diversifica\u00e7\u00e3o, por\u00e9m tamb\u00e9m aponta para a falta de um contorno mais rigoroso em torno do qual se poderiam cercear as quest\u00f5es que o definem, sem que se dependa em demasia ao que o singulariza em nega\u00e7\u00e3o ao cinema dominante. Tudo se passa como se o cinema experimental n\u00e3o fosse aut\u00f4nomo em suas peculiaridades, a ponto de que estas permitam que ele seja apreciado per se, ou seja: ele seria recorrentemente n\u00e3o-narrativo ou mesmo n\u00e3o-figurativo, de temporalidade n\u00e3o-linear, utilizando com maior frequ\u00eancia a poesia, a met\u00e1fora, a alus\u00e3o, com finais abertos, anticomercial, antiacad\u00eamico, elege conte\u00fados marginais ou minorit\u00e1rios, situa-se \u00e0 parte do sistema industrial e de sua concep\u00e7\u00e3o de entretenimento, questiona o pr\u00f3prio lugar que ocupa enquanto objeto de arte, \u00e9 anticonvencional enfim. Isto \u00e9 inclusive refor\u00e7ado pelo mainstream, que ao referir-se ao cinema experimental, pontua sua import\u00e2ncia conferindo-lhe uma dimens\u00e3o sobretudo utilit\u00e1ria ao legitima-lo como o \u2013 necess\u00e1rio \u2013 esp\u00edrito de renova\u00e7\u00e3o da linguagem do cinema. Embora o aparecimento do digital e da internet tenha modificado um pouco o quadro, facilitando o acesso, tornando mais frequente o contato com os filmes, e barateando os custos de produ\u00e7\u00e3o, ainda parece v\u00e1lido lembrar, como coloca Andr\u00e9 Parente7 que devemos atentar para o fato de que a ideia de uma certa \u201cforma cinema\u201d \u00e9 sobretudo ideol\u00f3gica, devemos estar atentos para n\u00e3o naturaliza-la, como se n\u00e3o existisse outra realidade poss\u00edvel. Nos prim\u00f3rdios do experimental encontram-se os filmes feitos especificamente por artistas pl\u00e1sticos, ligados a vanguardas hist\u00f3ricas, como os dos grupos futurista, construtivista e dada\u00edsta. Trata-se exatamente da produ\u00e7\u00e3o mais estudada e conhecida dentro ou fora da academia , onde se inclui tamb\u00e9m os que conseguem incentivos na cria\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o em circuitos comerciais ou privados. Esta produ\u00e7\u00e3o atinge um p\u00fablico mais amplo do que a apresentada regularmente apenas em museus, institui\u00e7\u00f5es, funda\u00e7\u00f5es, academias de arte, universidades, cineclubes, festivais, etc. Assim s\u00e3o as obras revolucion\u00e1rias (te\u00f3rica e pr\u00e1tica) de cunho futurista e construtivista como as de Dziga Vertov, a dos irm\u00e3os Bragaglia, ou de tend\u00eancia dad\u00e1-surrealista como as de Ren\u00e9 Clair, Luis Bu\u00f1uel, Jean Cocteau, Joseph Cornell, Marcel Duchamp, Man Ray, Fernand L\u00e9ger, Germaine Dulac, ou ainda outros como Laszl\u00f2 Moholy-Nagy, Norman McLaren, Len Lye, Derek Jarman, Guy Debord, Peter Greenaway, Chris Marker, William Klein, Raymond Depardon, Philippe Garrel, Jean-Luc Godard, etc. No contexto da cena americana (underground) destacamos Paul Strand, Maya Deren, Stan Brakhage, Kenneth Anger, Michael Snow, Gregory Markopoulos, Hollis Frampton, Carolee Schneemann, Jonas Mekas, etc. No Brasil a tradi\u00e7\u00e3o de um cinema experimental n\u00e3o remete a movimentos, mas sim a iniciativas individuais, pessoais e isoladas, ainda que algumas tenham sido marcantes como no caso do inaugural Limite (1930) de Mario Peixoto, em que o autor aplica uma serie de inova\u00e7\u00f5es da vanguarda francesa com as quais teve contato em sua estadia parisiense. Temos ainda o brasileiro Alberto Cavalcanti que com Rien que les Heures (1926) inaugura o que viria se tornar quase um g\u00eanero a parte em torno da celebra\u00e7\u00e3o da sinfonia das cidades. Nota-se outros autores como J\u00falio Bressane, Rogerio Sganzela, Carlos Reichenbach, Arthur Omar (que foi o autor do primeiro filme estrutural de found footage por aqui (Voc\u00eas, em 1979), e abordagens eventuais de artistas pl\u00e1sticos como Ant\u00f4nio Dias e Ant\u00f4nio Manuel, H\u00e9lio Oiticica junto a Neville d Almeida com as experi\u00eancias de quasi-cinema e seu redimensionamento do dispositivo a partir do espa\u00e7o (Bloco de Experi\u00eancias em Cosmococa \u2013 Programa in Progress, em 1973), ou ainda Caetano Veloso com seu Cinema Falado (1986), Jos\u00e9 Agripino de Paula, Jomard Muniz de Britto, Paulo Brusky e Daniel Santiago, etc. A luta que n\u00e3o pode parar&#8230; Abra\u00e7ar este cinema seria ent\u00e3o, declarar-se em empatia com o car\u00e1ter ut\u00f3pico e sis\u00edfico t\u00e3o associado aos poetas e aos sonhadores. Um projeto no qual acreditaram as vanguardas art\u00edsticas. Achar que \u00e9 poss\u00edvel estabelecer as premissas de um mundo melhor, que seria viabilizado pela arte. Uma arte da resist\u00eancia, desestabilizadora, radical, exigente, questionadora, \u00e9tica. Em um de seus textos que tive a oportunidade de traduzir8, Yann fala da import\u00e2ncia e do deslumbramento que constituiu para ele, quando j\u00e1 pensava em fazer filmes que se parecessem com m\u00fasica visual, a descoberta de Jonas Mekas, artista lituano radicado nos Estados Unidos. Ele escolhe iniciar sua apresenta\u00e7\u00e3o sobre Mekas, colocando-se ele pr\u00f3prio como cineasta, cr\u00edtico e ativista, aliando-se assim ao esp\u00edrito empreendedor deste artista, um grande e apaixonado defensor do cinema experimental, que n\u00e3o negou esfor\u00e7os e nem tinha meias palavras para criticar o status quo, incitar \u00e0 luta, apregoar o direito \u00e0 diferen\u00e7a, estimular a produ\u00e7\u00e3o, viabilizar a exibi\u00e7\u00e3o e a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria deste cinema que sempre manteve uma luta desigual com os espa\u00e7os de visibilidade destinados majoritariamente ao cinema dominante. Desde o in\u00edcio de sua incurs\u00e3o no experimental, Yann comprometeu-se com esta dimens\u00e3o de defesa e ainda em seus anos na Fran\u00e7a, co-fundou a Light Cone, a \u00fanica cooperativa de distribui\u00e7\u00f5es de filmes experimentais na Fran\u00e7a que disp\u00f5e de um cat\u00e1logo de obras verdadeiramente representativo do conjunto das correntes neste campo desde o in\u00edcio do s\u00e9culo at\u00e9 hoje. Exerceu tamb\u00e9m durante v\u00e1rios anos a fun\u00e7\u00e3o de professor sobre este cinema tanto na Fran\u00e7a (Studio Le Fresnoy, Sorbonne Nouvelle Paris 3) como tamb\u00e9m nos EUA (University of South Florida). Al\u00e9m de autor de in\u00fameros artigos dispersos em revistas, livros e cat\u00e1logos, concebeu \u00ab\u00a0Poussi\u00e8re d&rsquo;image\u00a0\u00bb, uma colet\u00e2nea de ensaios publicada em 1998, para Editions Paris Experimental, dentro da cole\u00e7\u00e3o Sine Qua Non. Entre 1994-96 acumulou as fun\u00e7\u00f5es de curador e programador no American Center e tamb\u00e9m realizou como artista interven\u00e7\u00f5es regulares em estruturas como o Centre Pompidou, o Mus\u00e9e d\u2019Art Moderne de la Ville de Paris, na Galerie Nationale du Jeu de Paume, e muitos outros espa\u00e7os fora da Europa. O reconhecimento da dimens\u00e3o art\u00edstica do cinema experimental como linguagem estaria ligado \u00e0 explora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de suas das potencialidades t\u00e9cnicas espec\u00edficas. O n\u00e3o-conformismo e a pluralidade de tend\u00eancias deste cinema como um todo \u00e9 incontest\u00e1vel, indo da problematiza\u00e7\u00e3o da materialidade pr\u00f3prio meio, sua efemeridade, as confronta\u00e7\u00f5es sobre a espacialidade da imagem em si mesma atrav\u00e9s da unidade f\u00edlmica b\u00e1sica que \u00e9 o fotograma, ou sobre quest\u00f5es estruturais do pr\u00f3prio dispositivo cinematogr\u00e1fico, assim como apropria\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, aspectos sociais ligados ao cotidiano, ao g\u00eanero, ao engajamento de cunho pol\u00edtico, etc. A pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica de Yann, uma reflex\u00e3o ao mesmo tempo te\u00f3rica, cr\u00edtica e hist\u00f3rica, d\u00e1 conta desta diversidade de abordagens e a partir da decis\u00e3o de vir para o Brasil e da funda\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o B3 em Recife, os v\u00e1rios tipos de exposi\u00e7\u00f5es promovidas acerca das diversas tend\u00eancias que se apresentam ao longo de sua hist\u00f3ria, confirmam o interesse em promover este cinema inquieto de suas margens. Estas exposi\u00e7\u00f5es e eventos marcam a cena recifense com o ineditismo de propostas a partir do acervo dispon\u00edvel e dos diversos contatos que os gestores do espa\u00e7o entret\u00e9m com os artistas em diversas partes do mundo. Mas enfim, o que busca o cinema experimental? A natureza multim\u00eddia do cinema experimental o coloca na interface com v\u00e1rias outras formas de cria\u00e7\u00e3o, por\u00e9m \u00e9 preciso ter em mente que o pr\u00f3prio exerc\u00edcio experimental de um meio de express\u00e3o, por seu car\u00e1ter eminentemente transgressor, questiona os limites das linguagens com as quais interage ludicamente. Haveria ent\u00e3o uma maior exatid\u00e3o no fato de se apontar para a quest\u00e3o do hibridismo entre as tend\u00eancias praticadas nas artes visuais atrav\u00e9s de modalidades como pintura, escultura, fotografia, holografia, colagem, desenho, quadrinhos, v\u00eddeo, performance, instala\u00e7\u00e3o e o cinema convencional, sem esquecer a m\u00fasica, e a literatura atrav\u00e9s da prosa e da poesia, como constituindo potenciais polos de conex\u00e3o imediatos a serem descobertos na pr\u00e1tica do cinema experimental ao longo de sua hist\u00f3ria. Tudo se passa como se hoje houvesse um reconhecimento de que os fatores que regem nossa percep\u00e7\u00e3o s\u00e3o complexos, visto que nos referenciamos simultaneamente a partir dos cinco sentidos, embora tenhamos tend\u00eancia a considera-los separadamente, contrariando o pr\u00f3prio funcionamento do nosso corpo. Esta situa\u00e7\u00e3o somada \u00e0 opacidade inerente a cada meio coloca em evid\u00eancia a necessidade para o sujeito fruidor em geral, de criar um repert\u00f3rio que envolva o contato com estas variadas formas de cria\u00e7\u00e3o sem hierarquiza-las e assim cada um poder formar individualmente seus pr\u00f3prios arquivos culturais dentro das possibilidades est\u00e9ticas desenvolvidas com estes meios imbricados. Por\u00e9m a hibridiza\u00e7\u00e3o tal como praticada neste tipo de cinema, pode tornar mais complexa a recep\u00e7\u00e3o da obra e este car\u00e1ter transdisciplinar e intersemi\u00f3tico gera uma completa mistura de linguagens, havendo ocasi\u00f5es em que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que se determine os limites de participa\u00e7\u00e3o de cada elemento constitutivo, por exemplo. Este tr\u00e2nsito de c\u00f3digos \u00e9 de natureza diversificada, indo da mudan\u00e7a de m\u00eddia para a de g\u00eanero, ou simplesmente mudando o enfoque. Onde h\u00e1 por parte do artista uma busca de equival\u00eancias em diferentes sistemas de signos para constar entre os v\u00e1rios elementos relacionados ao mesmo filme: escolhas ligadas a temas, acontecimentos, objetivos, personagens, modos de abordagem, posicionamentos ideol\u00f3gicos, contextos, tipos de representa\u00e7\u00e3o, etc. Apesar de vivemos atualmente um momento em que a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea convive de modo relativamente pac\u00edfico com as porosidades oriundas de uma simultaneidade entre as v\u00e1rias formas de express\u00e3o &#8211; fato este que o desenvolvimento dos meios tecnol\u00f3gicos veio refor\u00e7ar &#8211; isto incide sobre a amplitude do reconhecimento por parte do p\u00fablico, que deve ainda lidar com a constante reciclagem das informa\u00e7\u00f5es que circulam nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. S\u00e3o fatores que interferem no regime de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e9tica em maior escala destas obras, afinal todo tipo de experi\u00eancia demanda o conhecimento do leitor, atrav\u00e9s de sua mem\u00f3ria. Ao negar em sua grande maioria a incorpora\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter narrativo herdado pelo cinema convencional da literatura romanesca, o experimental enfatiza a dimens\u00e3o po\u00e9tica no sentido proposto por Roman Jakobson9 ao estabelecer os v\u00e1rios tipos de fun\u00e7\u00f5es da mensagem. A obra de arte parte do indiv\u00edduo, mas adquire seu sentido pleno quando inserida no regime de comunica\u00e7\u00e3o social e para este pensador da linguagem, a mensagem est\u00e9tica faz ressaltar a singularidade do pr\u00f3prio signo usado pelo emissor (artista) e provoca uma surpresa no destinat\u00e1rio, devido o seu funcionamento po\u00e9tico e\/ou exc\u00eantrico, que pressup\u00f5e uma organiza\u00e7\u00e3o que faz emergir um modo de constru\u00e7\u00e3o em seus aspectos t\u00e9cnicos sens\u00edveis, materiais e significantes, colocando ou n\u00e3o explicitamente em evid\u00eancia a sua po\u00efese10, o seu processo de constru\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode considerar o(s) sentido(s) ou mesmo sua produ\u00e7\u00e3o como prioritariamente compreens\u00edveis ou previs\u00edveis, eles n\u00e3o s\u00e3o pr\u00e9-codificados, ao contr\u00e1rio, elegem na maioria das vezes uma cria\u00e7\u00e3o que enfatiza tanto o significado quanto o vocabul\u00e1rio e os c\u00f3digos estabelecidos, renovando-os. A esta inst\u00e2ncia, podem ser associar outros pendores da linguagem como a natureza emotiva que coloca em evid\u00eancia o emissor\/autor, como por exemplo na longa tradi\u00e7\u00e3o no exerc\u00edcio do experimental das autobiografias atrav\u00e9s do di\u00e1rio filmado. Neste contexto n\u00e3o h\u00e1 como deixar de pensar em Jonas Mekas, que tornou esta forma de exerc\u00edcio autoral a sua marca pessoal e vai inclusive constituir uma refer\u00eancia importante para os filmes de Yann que versam sobre esta quest\u00e3o, como ele pr\u00f3prio afirma11. Existe tamb\u00e9m a possibilidade do que Jakobson chama de mensagem f\u00e1tica, cujo destaque vai para o canal (meio f\u00edsico, como o queria McLuhan) onde a experimenta\u00e7\u00e3o volta-se para um car\u00e1ter mais formal ou t\u00e9cnico, o que n\u00e3o significa que n\u00e3o possa transcende-la, atribuir-lhe um destino, servindo a um conceito ou ideia. A materialidade do filme e o espa\u00e7o em que ele existe, tendo o fotograma como elemento a ser explorado \u00e9 o apan\u00e1gio de cineastas com tend\u00eancias estruturalistas ou de filmes independentes que se v\u00ea em galerias. O remanejamento formal pode se dar inclusive dentro da premissa de aceita\u00e7\u00e3o do erro, assumindo riscos, reivindicando sua pr\u00f3pria efemeridade e\/ou precariedade, e n\u00e3o deixa de envolver a tend\u00eancia a uma certa habilidade artesanal em lidar com a mat\u00e9ria f\u00edlmica, que pode chegar mesmo a decompor-se no processo12. Mais do que considera-lo como g\u00eanero e portanto associa-lo a uma historicidade, ou cronologia definida, o cinema experimental representa uma atitude est\u00e9tica de rebeldia e provoca\u00e7\u00e3o por parte dos artistas aos modelos convencionalmente estabelecidos, institucionalizados, formadores da tradi\u00e7\u00e3o, comerciais, aqueles que s\u00e3o usados como paradigma da forma cinema pragmaticamente aceita pelo senso comum, em detrimento a formas mais desafiadoras do habitus13, no sentido preconizado por Pierre Bourdieu. A arte n\u00e3o s\u00f3 depende da a\u00e7\u00e3o dos fatores do meio, mas ao agir de maneira pragm\u00e1tica sobre os indiv\u00edduos ela apregoa sua voca\u00e7\u00e3o eminentemente social exigindo para ser entendida primordialmente a partir da rela\u00e7\u00e3o do artista com o mundo e com outros homens. O ser humano pode encontrar brechas nas normatiza\u00e7\u00f5es, naquilo que est\u00e1 estabelecido e desenvolver um pensamento respons\u00e1vel pelo desvio de normas, sendo que a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e principalmente a experimental, \u00e9 principalmente percebida como o resultado de um trabalho que abarca o racioc\u00ednio respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de ideias novas, transformadoras e renovadoras. Observe-se ainda que o fato de que isto tamb\u00e9m possa ser atribu\u00eddo a outras formas de linguagem que envolvam algum tipo de cria\u00e7\u00e3o como o teatro, a literatura, a m\u00fasica, a dan\u00e7a, as artes visuais, a arquitetura, moda, design, etc, corrobora para o reconhecimento da necessidade de um contra-poder, por parte destes atores sociais, visando a reivindica\u00e7\u00e3o \u00e0 visibilidade a que eles tem por direito, expressando suas indigna\u00e7\u00f5es e depositando esperan\u00e7as na legitima\u00e7\u00e3o de valores e interesses que lhes s\u00e3o pr\u00f3prios. Organizar-se em grupos, reunir pessoas que compartilham interesses em comum, viabiliza as m\u00faltiplas interfer\u00eancias, as conex\u00f5es, a interatividade, a dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es. Este estado de coisas d\u00e1 margem sobretudo para a emerg\u00eancia e consolida\u00e7\u00e3o de um posicionamento pol\u00edtico de confronto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de poder constitutivas das institui\u00e7\u00f5es da sociedade como um todo e tamb\u00e9m do Estado14. O mediador na produ\u00e7\u00e3o de sentido: curadoria\/cr\u00edtica \/cria\u00e7\u00e3o Cr\u00edticos de arte, curadores e os pr\u00f3prios artistas s\u00e3o auxiliares na divulga\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de sentido da obra de arte. Curadoria em princ\u00edpio \u00e9 uma atividade pedag\u00f3gica, ela pode atuar como ampliadora da pot\u00eancia de sentido investidas nas obras pelos seus autores. Desenvolveu-se na medida em que se aprendeu a explorar e a utilizar a percep\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: orienta e educa artistas e p\u00fablico, explica a natureza do fazer art\u00edstico, estabelece as regras da boa arte, escolhe crit\u00e9rios de aprecia\u00e7\u00e3o, torna aspectos subjetivos em aspectos coletivos e partilhados e, portanto mais objetivos que reflitam o pensamento da \u00e9poca, ajuda o desenvolvimento da sensibilidade e preserva para o futuro os valores est\u00e9ticos. Seleciona os artistas e as obras. Legitima. Ao proferir discurso sobre a obra lhe atribui um sentido e um valor cultural. Ao definir a ideia ou ponto de vista que vai presidir a exposi\u00e7\u00e3o, selecionar os artistas e os trabalhos, organiza-los espacialmente e, em fazendo este ato, colocar-se criticamente sobre as escolhas efetivadas, o curador assina e assume a atitude autoral de uma vis\u00e3o pessoal, confere visibilidade ao pensamento te\u00f3rico que serve de base \u00e0 mostra, proporcionando uma legibilidade potencialmente intr\u00ednseca \u00e0s pe\u00e7as que a constitui. Como a produ\u00e7\u00e3o de sentido chega at\u00e9 o p\u00fablico, eis o cerne da quest\u00e3o. Isto n\u00e3o significa que esta leitura deva ser un\u00edvoca em seus significados, como seria o caso de uma dimens\u00e3o por demais esclarecedora, seria menos aportar explica\u00e7\u00f5es e mais tratar de ampliar na mente do p\u00fablico o pr\u00f3prio mist\u00e9rio da obra. Se a arte sempre esteve associada \u00e0 utopia e embora estes sejam dois conceitos imbricados, diferenciam-se no fato de que a utopia almeja um lugar, enquanto a arte \u00e9 sempre um outro lugar, nunca estando onde pensamos encontra-la, e, como dizia Jean Dubuffet, que ela (a obra de arte) permane\u00e7a, inclusive para seu autor, sempre uma quest\u00e3o e n\u00e3o uma resposta15. Em seu papel de mediador, ativo part\u00edcipe de associa\u00e7\u00f5es cineclubistas, Yann Beauvais organizou manifesta\u00e7\u00f5es sobre artistas e escreveu uma prol\u00edfica fortuna cr\u00edtica sobre a produ\u00e7\u00e3o experimental que se desenvolve h\u00e1 d\u00e9cadas em v\u00e1rias partes do mundo, reconhecendo sobretudo que o cinema experimental n\u00e3o cai na armadilha de hierarquizar suas tend\u00eancias16. Em dias atuais haveria um reconhecimento de que os fatores que regem nossa percep\u00e7\u00e3o s\u00e3o complexos, uma vez que nos referenciamos simultaneamente a partir dos cinco sentidos, embora incorporemos uma certa tend\u00eancia a considera-los separadamente, contrariando o pr\u00f3prio funcionamento do nosso corpo. O car\u00e1ter multitudin\u00e1rio e ecl\u00e9tico de pr\u00e1ticas abra\u00e7adas pelos artistas do experimental, como n\u00e3o poderia deixar de ser, entra completamente em conson\u00e2ncia com o momento atual, onde o que se verifica \u00e9, nas palavras de Umberto Eco17, referindo\u2013se ao gosto, um sincretismo total, uma polite\u00edsmo irrefre\u00e1vel, ao qual devemos nos submeter, devedores que somos da crise de modelo gerado pelo mass media. Lidar com o presente, com o que est\u00e1 acontecendo, significa estar muito atualizado com a diversificada e din\u00e2mica cena, onde a contemporaneidade18 se desdobra ent\u00e3o vertiginosamente, como se fosse formada por caminhos labir\u00ednticos projetados como corredores de espelhos, e repercute na sociedade inteira, em escala global. Ela nos reconduz assim em dire\u00e7\u00e3o ao conhecimento do nosso ser paradoxal, e a revela\u00e7\u00e3o das formas, nos aproxima da revela\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, constituindo-se como a subst\u00e2ncia do nosso ser individual, do ser coletivo e da rela\u00e7\u00e3o entre um e outro. Autor de uma produ\u00e7\u00e3o f\u00edlmica considerada ecl\u00e9tica, Yann Beauvais imprime uma dial\u00e9tica de natureza identit\u00e1ria entre o mesmo e o outro, incluindo neste processo quest\u00f5es que lhe s\u00e3o essenciais19. O acompanhamento e an\u00e1lise de processos criativos permite que se fale de um autor (ou de uma autoria) e assim constituir-se na rela\u00e7\u00e3o com outros. O exerc\u00edcio da cr\u00edtica \u00e9 metalingu\u00edstico, constitutivo de si mesmo, constr\u00f3i sua linguagem da pr\u00f3pria linguagem, e neste processo alguns autores podem assumir uma vis\u00e3o mais distanciada, panor\u00e2mica sobre o objeto a que se referem, outros o analisam de modo mais \u00edntimo, a partir de um embate mais visceral e o reconstroem. N\u00e3o posso deixar de referendar aqui que quando leio os textos de Yann, percebo primordialmente no trabalho de sua escrita a alma e a percep\u00e7\u00e3o fundamentalmente do artista, isto \u00e9, suas palavras est\u00e3o sempre em fus\u00e3o com o trabalho pl\u00e1stico ao qual a reflex\u00e3o escrita se refere, ela n\u00e3o se distancia do mesmo em nenhum momento, e a impress\u00e3o que eles me d\u00e3o \u00e9 a de uma rela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima com o universo do qual tratam, uma vis\u00e3o por dentro, tribut\u00e1ria de quem conhece a fundo o processo de fazer filmes. S\u00e3o did\u00e1ticos em certos aspectos, por certo, na medida necess\u00e1ria para contextualizar a proposta dentro de uma tend\u00eancia mais abrangente, mas principalmente dando conta de uma viv\u00eancia em seu car\u00e1ter mais fenomenol\u00f3gico, muito pessoal, como se o objetivo principal n\u00e3o estivesse no fruto da experi\u00eancia (a obra) e sim na pr\u00f3pria experi\u00eancia, no ato em si. Suas an\u00e1lises geram uma fortuna cr\u00edtica sobre o experimental que traz por objetivo o desejo de criar uma possibilidade para que a reflex\u00e3o sobre a obra tome parte deste processo de gerar um pensamento sobre o artista, sobre sua trajet\u00f3ria, sobre a atualidade das quest\u00f5es colocadas pelo trabalho do autor. Publicados seja atrav\u00e9s de livros, cat\u00e1logos ou revistas, eles transformam a exposi\u00e7\u00e3o em um discurso, perenizam a obra referenciada para al\u00e9m do seu car\u00e1ter ef\u00eamero de acontecimento e transformam a reflex\u00e3o neles contida em instrumento cient\u00edfico de pesquisa, ampliando o contato do p\u00fablico com este universo marginalizado. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que ao longo da minha apreens\u00e3o do seu caminhar, pude perceber o compromisso e o engajamento com o fazer \u2013 em todos os sentidos &#8211; que estiveram sempre associados em sua rela\u00e7\u00e3o com o audiovisual atrav\u00e9s do cinema experimental. Tudo se passa como se ele nunca deixasse de evidenciar que o foco de sua trajet\u00f3ria se revela na consci\u00eancia de abarcar os meandros desta produ\u00e7\u00e3o em vias de realizar algo, fazer no sentido operat\u00f3rio de criar, sim, mas tamb\u00e9m no sentido de instaurar a diferen\u00e7a, ser relevante social e esteticamente, criando, trazendo \u00e0 tona quest\u00f5es socialmente importantes, atuando na difus\u00e3o dos aportes trazidos pelas obras de artistas no qual acredita, trazendo sua verdade para sua arte e sua vida.<\/p>\n<p>* * Doutora em Artes Pl\u00e1sticas e Ci\u00eancias da Arte pela Universit\u00e9 de Paris 1 \u2013 Panth\u00e9on Sorbonne, professora de Artes Visuais (Est\u00e9tica e Historia da Arte) e da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras e Lingu\u00edstica (intersemiose) da Universidade Federal de Pernambuco \u2013 UFPE, curadora e artista pl\u00e1stica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>1 Apesar da emerg\u00eancia da tecnologia digital e da internet, terem, sem d\u00favida facilitado tanto a produ\u00e7\u00e3o de filmes experimentais quanto a sua divulga\u00e7\u00e3o, os \u00edndices de aceita\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, institucional, de mercado, e principalmente por parte de um p\u00fablico n\u00e3o especializado, ainda \u00e9 rarefeito em seus espa\u00e7os de visibilidade, e frui\u00e7\u00e3o, quando comparado ao cinema hegem\u00f4nico, como ser\u00e1 abordado mais adiante.<\/p>\n<p>2 Desde a Antiguidade, nos diz a autora, o verbo &lt;\u00a0ler\u00a0&gt; tamb\u00e9m compreendia as no\u00e7\u00f5es de recolher, colher, espiar, reconhecer os tra\u00e7os, tomar, roubar, (p.120), in Kristeva, J., S\u00e8m\u00e9iotik\u00e9: Recherches pour une s\u00e9manalyse, Paris, Seuil, (1969) 1978, coll. points.<\/p>\n<p>3 O anel de m\u0153bius \u00e9 uma figura topol\u00f3gica por excel\u00eancia, que inicialmente se apresenta com a apar\u00eancia de constituir um espa\u00e7o lim\u00edtrofe entre dois lados distintos; isto por\u00e9m revela-se como sendo ilus\u00f3rio, pois a atenta observ\u00e2ncia desta aparente descontinuidade faz emergir a constata\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o oposta, como se fosse um presente cont\u00ednuo, paralela a si mesma.<\/p>\n<p>4 Foi um ciclo de 12 encontros entre abril e novembro, que versaram sobre diversos artistas como Peter Kubelka, C\u00e9cile Fontaine, Lisl Ponger, Su Friedrich, Mark Morrisroe, Guy Debord, Daniel Eisenberg, Trinh-minh-ha, Fiona Tan, Chen Chie-jen, Jos\u00e9 Agripino de Paula, isoladamente, agrupados e\/ou referenciados em torno de temas\/assuntos como filmes de viagem, autobiografias, no\u00e7\u00f5es do \u00edntimo e do privado, sociedade do espet\u00e1culo, fotografia polaro\u00efd, mem\u00f3ria coletiva e individual, quest\u00f5es do corpo, New Queer, AIDS, p\u00f3s-colonialismo, as materialidades e a dimens\u00e3o gr\u00e1fica no cinema. Atrav\u00e9s da alian\u00e7a entre o B3 e a institui\u00e7\u00e3o, trouxe pela primeira vez ao Brasil o artista Malcom Le Grice para uma palestra, al\u00e9m de promover uma exposi\u00e7\u00e3o de alguns dos filmes do conhecido cineasta brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>5 Foram ao todo uma colet\u00e2nea de doze textos sobre Jonas Mekas, Andy Warhol, Edson Barrus, Malcom Le Grice, Su Friedrich, J\u00fcrgen Rebel, Paul Sharits, al\u00e9m de textos que versam sobre a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica, certas tend\u00eancias do cinema experimental, quest\u00f5es da espacializa\u00e7\u00e3o da imagem, found footage, e o di\u00e1rio filmado, traduzidos do idioma franc\u00eas e que devem ser objeto de publica\u00e7\u00e3o pela Editora Universit\u00e1ria da UFPE sob o t\u00edtulo Cinema experimental sob o olhar de Yann Beauvais, em breve.<\/p>\n<p>6 O cr\u00edtico, historiador e documentalista Jean Mitry entende como experimental o que \u00e9 associado aos grandes movimentos art\u00edsticos do cinema experimental europeu mudo. Hoje existe mais ou menos um consenso em torno do qual o experimental se op\u00f5e ao cinema majorit\u00e1rio. Cinema underground \u00e9 uma denomina\u00e7\u00e3o que ficou associada ao cinema da escola de Nova York dos anos 60. No Brasil da d\u00e9cada de 70, o movimento contracultural recifense \u201cudigrudi\u201d retoma e transforma ironicamente a express\u00e3o inglesa e a situa em um outro espa\u00e7o pol\u00edtico, social e est\u00e9tico, envolvendo principalmente a m\u00fasica, mas tamb\u00e9m atingindo teatro, artes pl\u00e1sticas, produ\u00e7\u00e3o textual, cinema, artesanato, etc.<\/p>\n<p>7 Andr\u00e9 Parente, A forma cinema: varia\u00e7\u00f5es e rupturas, In: Maciel, K\u00e1tia (Org.). Transcinemas. Rio de Janeiro, Contra Capa, 2009 (p.23-47) N\u00e3o devemos, portanto, permitir que a \u2018forma cinema\u2019 se imponha como um dado natural, numa realidade incontorn\u00e1vel. A pr\u00f3pria \u2018forma cinema\u2019, ali\u00e1s, \u00e9 uma idealiza\u00e7\u00e3o. Deve-se dizer que nem sempre h\u00e1 sala; que a sala nem sempre \u00e9 escura; que o projetor nem sempre est\u00e1 escondido; que o filme nem sempre se projeta (&#8230;); e que este nem sempre conta uma hist\u00f3ria (p. 25).<\/p>\n<p>8 Pr\u00e9sentation de Jonas Mekas, na ocasi\u00e3o de uma exposi\u00e7\u00e3o no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)<\/p>\n<p>9 Roman Jakobson, apud Samira Chalub, A Metalinguagem, SP, \u00c1tica, 2005, col. Princ\u00edpios. (p.16-17)<\/p>\n<p>10 Ren\u00e9 Passeron, Pour une philosophie de la cr\u00e9ation, Paris, Klincksieck, 1989. Este autor retomou a ideia de Paul Val\u00e9ry sobre o estudo da g\u00eanese do poema, e o ampliou para todas as artes considerando-o como o conjunto de estudos que levam \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o da obra, a a\u00e7\u00e3o din\u00e2mica entre artista\/obra durante a realiza\u00e7\u00e3o da mesma, opondo-a \u00e0 compreens\u00e3o no campo da Est\u00e9tica, que preocupa-se com os efeitos de recep\u00e7\u00e3o da obra terminada. No Brasil, Cecilia Almeida Salles aborda a ideia de constru\u00e7\u00e3o da obra de arte a partir dos materiais ou \u00edndices de v\u00e1rias naturezas que a viabilizam: \u201c\u00c9 a a\u00e7\u00e3o, mediada pelo pensamento e pelas sensa\u00e7\u00f5es, que faz a obra se desenvolver\u201d (p.116). Ver Cr\u00edtica Gen\u00e9tica: fundamento dos estudos gen\u00e9ticos sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, SP, EDUC, 2008<\/p>\n<p>11 op.cit. nota 8<\/p>\n<p>12 A este respeito ver um dos textos de Yann sobre o artista J\u00fcrgen Reble intitulado O suporte inst\u00e1vel (tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n<p>13 Pierre Bourdieu, A Domina\u00e7\u00e3o Masculina, Rio de Janeiro, Editora Bertrand Brasil, 2003, (p 64).<\/p>\n<p>14 O termo contra-poder \u00e9 utilizado pelo soci\u00f3logo Manuel Castells, que analisa este fato \u00e0 luz da emerg\u00eancia das redes sociais, in Redes de indigna\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a: movimentos sociais na era da internet, Rio de Janeiro: Zahar, 2013 (p.10)<\/p>\n<p>15 Le Thorel-Daviot, Pascale, Petit Diccionnaires des Artistes Contemporains, Paris, Larousse, (1996) 2000. (p. 84)<\/p>\n<p>16 Yann Beauvais, apud Jean-Michel Bouhours, in N\u0153uds d\u2019images, in Le cinema d\u00e9cadr\u00e9e, Paris, Centre Pompidou, 1999<\/p>\n<p>17 Umberto Eco, A Hist\u00f3ria da Beleza, tr. Eliana Aguiar, Rio de Janeiro, Record, 2004 (p.428)<\/p>\n<p>18 Maria do Carmo Nino, Considera\u00e7\u00f5es Est\u00e9ticas sobre o Modernismo e Ap\u00f3s, (comunica\u00e7\u00e3o oral, n\u00e3o publicada), 2009<\/p>\n<p>19 Dominique Noguez, \u00c9loge du Cin\u00e9ma Exp\u00e9rimental, Paris, Paris Exp\u00e9rimental, 1999. (p.214)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ma do Carmo Nino* em yb150213 40 anos de cinemativismo, organizado por Edson Barrus, B3, Recife, Novembro 2014 N\u00e3o contemplamos o mundo de fora, como se assist\u00edssemos a um espet\u00e1culo na plateia. Os discursos e o Discurso cruzam-se na psique. Acontecemos e fazemos acontecer. 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