{"id":1199,"date":"2015-01-29T23:48:25","date_gmt":"2015-01-29T22:48:25","guid":{"rendered":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=1199"},"modified":"2015-01-29T23:51:23","modified_gmt":"2015-01-29T22:51:23","slug":"its-all-the-same-you-youre-queer-anyhow-os-filmes-de-mark-morrisroe-pt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=1199","title":{"rendered":"\u00abIt\u2019s all the same you, you\u2019re queer anyhow!\u00bb Os Filmes de Mark Morrisroe (Pt)"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"main-title\"><\/h1>\n<p>publicado em franc\u00eas em Gruppen n\u00b04, Hiver 2012, Mont de Marsan<\/p>\n<p>e dado como palestra no cclo o tempo das imagens # 5, B3, Recife<\/p>\n<p>Minha vida Inf\u00e2ncia + Judy Garland Escola + impopularidade Vizinhan\u00e7a prejudicial Mudan\u00e7a traumatizante Puberdade + revista de putaria Sair de casa Prostitui\u00e7\u00e3o + celebridade Levado um tiro Trauma do lar Liberta\u00e7\u00e3o pela escola de arte Gar\u00e7om Maturidade Prostitui\u00e7\u00e3o provocadora E promiscuidade Amor \u00c9 t\u00e3o bom Sucesso Fran\u00e7a Trabalho na restaura\u00e7\u00e3o Drogas + depress\u00e3o Nova Iorque Mais depress\u00e3o AIDS Algu\u00e9m se incomodaria se eu me travestisse?[1]<\/p>\n<p>O trabalho fotogr\u00e1fico de Mark Morrisroe, exemplar em mais de um aspecto, divide com seus contempor\u00e2neos dos anos 80 uma dimens\u00e3o po\u00e9tica particular, atrav\u00e9s das marcas coloridas das anota\u00e7\u00f5es esbo\u00e7adas nas margens das fotografias, que lembram os graffiti murais, bem como as palavras pintadas de Jean-Michel Basquiat, Futura 2000, sem chegar em Cy Twombly, se bem que\u2026 Essas inscri\u00e7\u00f5es desajeitadas afirmam uma subjetividade, assim como elas se colocam ao oposto da imagem civilizada da fotografia. S\u00e3o coment\u00e1rios que me lembram a presen\u00e7a da voz nos di\u00e1rios filmados de Jonas Merkas ou \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o da caixa de papel\u00e3o interrompendo o fluxo de uma sequ\u00eancia, apontando outros universos, outros tempos.<\/p>\n<p>Na riqueza dos tratamentos da imagem em Mark Morrisroe, acha-se uma proximidade com a atitude adotada por v\u00e1rios cineastas experimentais, que se opuseram e defenderam uma est\u00e9tica da mat\u00e9ria, trabalhando, triturando os diferentes estratos do suporte arg\u00eantico; suporte cujo futuro iminente era pensado como ultrapassado, obsoleto. O recurso a esse \u201cmaterialismo\u201d se generalizou no in\u00edcio dos anos 80 na Europa e nos Estados Unidos, principalmente em Boston, em torno das figuras de <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7QUw_y0uZcY\" target=\"_blank\">Saul Levine<\/a> e Carolyne Avery. Essas marcas manifestam uma apropria\u00e7\u00e3o suplementar, elas inscrevem-se, sobretudo no campo da fotografia; uma revis\u00e3o do uso da fotografia que, se distanciando do seu aspecto puramente mec\u00e2nico, reafirma atrav\u00e9s de tais rastros uma dimens\u00e3o artesanal, manual da fotografia, e reivindica por ela mesma, seu aspecto pictorialista[2], fazendo-a cair no campo do desenho. Uma dimens\u00e3o que se inscreve em conflito, com o tornar-se m\u00e1quina celebrado por Warhol alguns anos mais cedo. Essa grafia \u00e9 t\u00e3o mais pertinente na medida em que ela estratifica o \u00e2mbito pessoal das fotografias de Mark Morrisroe, fornecendo outras temporalidades e se abrindo a outros espa\u00e7os afetivos. Mark Morrisroe desenvolve, como os outros membros da escola de Boston, uma perspectiva autobiogr\u00e1fica em suas fotos como nunca foi feito at\u00e9 ent\u00e3o. A fotografia como arte menor (aquela que n\u00e3o tem realmente o estatuto de arte), quer dizer a do nosso cotidiano, torna-se o tema predileto de cada membro da escola de Boston. N\u00e3o \u00e9 tanto o entorno de rela\u00e7\u00f5es que \u00e9 retratado, mas a manifesta\u00e7\u00e3o de um narcisismo no autorretrato que, para Mark Morrisroe, torna-se um g\u00eanero em si. Em suas fotos, ele convoca hist\u00f3rias (\u00edntimas) das quais n\u00f3s somos testemunhas, mais ou menos implicadas, mas ele faz isso ridicularizando simultaneamente as \u00e9pocas antigas da fotografia, que ele altera tanto pelos temas que pelos tratamentos deles\u2026 Como o nota inteligentemente Norman Bryson, Mark Morrisroe em algumas fotos, convoca v\u00e1rios estratos da hist\u00f3ria da representa\u00e7\u00e3o de Courbet a Paul Morissey[3]. Acontece o mesmo com os filmes Super 8, que retomam um amplo corpus do cinema underground, mas que n\u00e3o se reduzem a isso, nem o repetem, pois esses filmes participam da est\u00e9tica punk do momento, cujas palavras \u201cno future\u201d eram o lema (e n\u00e3o somente musical): movimento criado na Europa e na Am\u00e9rica do Norte a partir do final dos anos 70 e in\u00edcio dos anos 80. Lembremo-nos que os tr\u00eas filmes de Mark Morrisroe foram filmados entre 82 e 84 , mas nunca foram realmente incorporados no espa\u00e7o do cinema experimental da \u00e9poca, nem ulteriormente (anteriormente)[4]. Eles sempre foram \u00e0 margem do cinema experimental, embora esses tr\u00eas filmes tenham em comum com o Cinema of Transgression e o No Wave Cinema [5] dos anos 80 a mesma din\u00e2mica da provoca\u00e7\u00e3o, mas sempre incluso durante suas exibi\u00e7\u00f5es pessoais. A produ\u00e7\u00e3o desses filmes testemunha uma similaridade de gestos tanto no uso do formato super 8, como nos conte\u00fados, pois eles retratam um mundo marginal, o da prostitui\u00e7\u00e3o, do travestismo, da confus\u00e3o dos g\u00eaneros e das drogas e prolongam assim, renovando a iconografia gay dos anos 60 e 70. Liga\u00e7\u00f5es existem entre os mundos de Mark Morrisroe e os de Andy Warhol e Paul Morissey[6]. \u00a0Da mesma maneira, o uso do trash, do cheap, est\u00e9ticas apreciadas por Jack Smith e os irm\u00e3os Kuchar, e que se encontram implementadas nos primeiros filmes de <a href=\"http:\/\/vimeo.com\/8687354\" target=\"_blank\">John Waters<\/a>, s\u00e3o centrais no universo de Morrisroe e isso n\u00e3o apenas no campo art\u00edstico, acredita-se em diferentes testemunhos[7]. Os filmes e as fotos de Mark Morrisroe s\u00e3o o eco de uma vida, atrav\u00e9s da captura de instant\u00e2neos retrabalhados, anotados. Eles s\u00e3o as marcas tang\u00edveis das performances na vida de um personagem que se molda atrav\u00e9s dos diferentes pap\u00e9is desempenhados, que sejam grotescos, burlescos ou pat\u00e9ticos. Os pap\u00e9is, as fotos e os filmes permitem mexer diferentes personagens, eles s\u00e3o a escrita ef\u00eamera de um personagem que se cria e recria, recorrendo a fic\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas para as necessidades da causa. \u00c9 assim que se entende o recurso das fotos de filmes. N\u00e3o s\u00e3o as fotos de localiza\u00e7\u00f5es, ou de filmagens, mas de fotos de sets de filmagem, assistidas a partir de fotoprograma do super 8, assinado duplamente por Mark Morrisroe. \u00a0 \u00a0Ver a ilustra\u00e7\u00e3o: Hello from Bertha (1983); para Nymph-O-Maniac (1983),<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-708\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/Nymph-o-maniac.jpeg\" alt=\"Nymph-o maniac\" width=\"259\" height=\"194\" \/> a foto do set est\u00e1 legendada como produ\u00e7\u00e3o do Spectacular Studios!, datada de 1984. Em algumas fotos, Mark Morrisroe d\u00e1 um t\u00edtulo ao polar\u00f3ide, mas acrescenta entre par\u00eantesis indica\u00e7\u00e3o tal: Ode \u00e0 Diane Arbus. Todas as marcas parecem criar uma dist\u00e2ncia, aparentemente, elas traduzem uma apropria\u00e7\u00e3o suplementar, a marca de uma subjetividade que se manifesta na produ\u00e7\u00e3o de um universo fantasmag\u00f3rico pessoal, a partir da retirada do real, pelo menos (tecnicamente) assistido, quer dizer manipulado. \u00c9 preciso entender essa manipula\u00e7\u00e3o ao p\u00e9 da letra. A manipula\u00e7\u00e3o se exerce duplamente, uma vez no n\u00edvel do conte\u00fado, que se trate de retratos ou autorretratos, ou que ela se revele nas formas e t\u00e9cnicas usadas. Enquanto \u00e0 fotografia, as marcas esbo\u00e7adas funcionam como mais-valia, elas s\u00e3o os rastros de uma troca epistolar potencial, elas parecem dirigir-se a um destinat\u00e1rio particular (The Boy Next Door, Summer 1983, p 193). Do lado delas, as impress\u00f5es digitais[8], os arranh\u00f5es, dobras e manchas insistem sobre o car\u00e1ter artesanal da produ\u00e7\u00e3o das fotos, as quais s\u00e3o criadas integralmente por um corpo: o de Mark Morrisroe. (In the Garden of the Water Babies 1983, p 245). \u00a0Estes rastros bem particulares se veem em v\u00e1rios cineastas que, nos anos 80, decidem controlar todas as etapas e fabrica\u00e7\u00e3o dos seus filmes, isso quer dizer que eles revelam os filmes eles mesmos, sem recorrer aos laborat\u00f3rios. Dentre eles, pode-se citar Carolyne Avery, Phil Solomon, Mathias M\u00fcller, Jurden Reble. A produ\u00e7\u00e3o, autonomizando-se, se desenvolve segundo uma est\u00e9tica mais crua, em rela\u00e7\u00e3o com a cena Punk e G\u00f3tica, privilegiando a proje\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os alternativos: clubes, bares. Esses rastros parasitas n\u00e3o s\u00e3o a \u00a0marca de um know-how, eles respondem a outros crit\u00e9rios que incorporam diferencialmente as modas de produ\u00e7\u00e3o da imagem. Ela parece confiscar o materialismo dos cineastas estruturais[9], a mat\u00e9ria filme se expande contra um modo de representa\u00e7\u00e3o burgu\u00eas, que se acompanha de um conjunto de regras de produ\u00e7\u00e3o e de apresenta\u00e7\u00e3o da obra. \u00c0 imagem lisa e civilizada do cinema narrativo industrial, os cineastas estruturalistas materialistas op\u00f5em a brutalidade de suas apropria\u00e7\u00f5es e desvios, que colocam em primeiro plano a materialidade do suporte em si, sem concess\u00e3o nem reinvindica\u00e7\u00e3o pessoal. A quest\u00e3o \u00e9 resistir a um modo dominante, enquanto os cineastas dos anos 80, que se apropriam dessa materialidade, o fazem numa \u00f3tica diferente, pois eles se empregam na irriga\u00e7\u00e3o subjetiva, nessa mat\u00e9ria fotogr\u00e1fica e cinematogr\u00e1fica. Estamos na presen\u00e7a de uma reterritorializa\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria cinematogr\u00e1fica, que \u00e9 reinvestida e se op\u00f5e \u00e0 representa\u00e7\u00e3o dominante pr\u00f3pria, ins\u00edpida, sem pathos, asseptizada, normatizada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-724 alignnone\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/images-2-copie.jpeg\" alt=\"images-2 - copie\" width=\"173\" height=\"216\" \/> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-715 alignnone\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/autoportrait.jpeg\" alt=\"autoportrait\" width=\"131\" height=\"160\" \/> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-716 alignnone\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/bird-tattoo-3.jpeg\" alt=\"bird tattoo-3\" width=\"150\" height=\"219\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-714\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/autoportrait-copie.jpeg\" alt=\"autoportrait- copie\" width=\"181\" height=\"226\" \/>\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-720 alignleft\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/DownloadedFile-1-copie.jpeg\" alt=\"DownloadedFile-1 - copie\" width=\"203\" height=\"202\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-727 alignnone\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/images-12-copie.jpeg\" alt=\"\" width=\"160\" height=\"206\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-731 alignright\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/Morrisroe_Tom-of-Finland-980-680x496.jpg\" alt=\"Morrisroe_Tom-of-Finland-980-680x496\" width=\"294\" height=\"214\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A anormalidade, o diferente n\u00e3o s\u00e3o reinvindicados, mas explorados, e se d\u00e3o como alternativas \u00e0s produ\u00e7\u00f5es anteriores que desenvolviam seus processos sobre a forma de resist\u00eancia a uma ideologia da representa\u00e7\u00e3o. Aqui a mat\u00e9ria \u00e9 sobrecarregada, mostrada em todo seu esplendor, em todos os seus estados. O filme, as fotos, se estragam nas texturas, nas espessuras dos estratos arg\u00eanticos constituindo a emuls\u00e3o colorida. Os sujeitos se dissolvem na mat\u00e9ria, eles formam corpo com a mat\u00e9ria. O filme, a foto est\u00e3o em gesta\u00e7\u00e3o, temas por vir. N\u00e3o \u00e9 por acaso que nessa \u00e9poca, o corpo, o sexo e o g\u00eanero se imp\u00f5em como temas dominantes no cinema e no v\u00eddeo; eles se inscrevem \u00a0num movimento que manifesta o seu interesse pelo pessoal, o \u00edntimo, o singular, no qual a marca de um tema \u00e9 predominante[10]. Essas marcas se inscrevem \u00a0no tratamento da mat\u00e9ria fotogr\u00e1fica que, no caso de Mark Morrisroe, privilegia a utiliza\u00e7\u00e3o de procedimentos espec\u00edficos durante a revela\u00e7\u00e3o das fotos (sanduiche de um negativo preto e branco a um positivo colorido a fim de produzir uma revela\u00e7\u00e3o punica) ou manipulando o polar\u00f3ide durante a sua revela\u00e7\u00e3o. Em todos os casos, o tratamento assinala um corpo engajado no moldar da imagem. O corpo de Mark Morrisroe se torna o seu tema predileto. A manifesta\u00e7\u00e3o desse interesse ultrapassa a contempla\u00e7\u00e3o narc\u00edsica no sentido que o corpo \u00e9 encenado de v\u00e1rias maneiras provocadoras, \u00e0s vezes incomodantes. \u00a0Esse corpo de mo\u00e7o \u00a0tamb\u00e9m \u00e9 o corpo de um jovem prostituto, que se chafurda no mundo da arte. Mark Morrisroe, como David Wojnarowicz, n\u00e3o penduraram no cabide da arte as suas atividades de antigos prostitutos, eles fazem disso o tema de fotos, filmes, textos. (Ver Sweet 16, Little Me as a Child Prostitute, [1984], p 143), a s\u00e9rie Arthur Rimbaud in New York [1978\/79], de Wojnarowicz). O recurso do campo \u00e9 ent\u00e3o essencial, na medida em que ele torna poss\u00edvel fazer das mascaradas (par\u00f3dias) uma arma de decis\u00e3o e de afirma\u00e7\u00e3o. O campo se define por um conjunto de gestos, comportamentos, atitudes, que modificam c\u00f3digos sociais e fazem de um sujeito \u2013 um personagem, uma diva, uma doida \u2013 uma criatura flamejante \u00a0ou horr\u00edvel, segundo as necessidades. Nos anos sessenta, antes que Susan Sontag o transforme em objeto de um famoso artigo[11], e que isso se torne um tema das queer-studies; o campo era mal visto: \u201ca palavra campo \u00a0utilizada pela imprensa dominante geralmente \u00e9 pejorativa, significando homossexual ou insincero, zoando de tudo que for feito. A maioria do tempo, n\u00f3s nos divert\u00edamos do nosso jeito e acredit\u00e1vamos sinceramente no que faz\u00edamos. A gente sempre estava exposta[12]\u201d Retomando um argumento de Richard Dyer em rela\u00e7\u00e3o a Jack Smith[13], pode-se dizer que Mark Morrisroe se inscreve nessa tradi\u00e7\u00e3o do campo, que n\u00e3o faz mais o retrato \u00edntimo do autor (sua personalidade), mas desenvolve as facetas do performer. Em dois de seus filmes, Mark Morrisoe de drag queen, faz dos seus alter-egos personagens, jogam com os c\u00f3digos do seu universo ao benef\u00edcio de uma teatraliza\u00e7\u00e3o que faz \u00a0do canhesto, da repeti\u00e7\u00e3o, do inacabado, motores \u00a0de fic\u00e7\u00e3o. J\u00e1 era o caso em algumas com\u00e9dias de Andy Warhol dos anos 60, Harlot (1964)<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-701\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/Harlot.jpeg\" alt=\"Harlot\" width=\"259\" height=\"194\" \/>, Lupe (1965), The Life of Juanita Castro (1965), Camp (1965), The Chelsea Girls (1966), Lonesome Cowboys (1967). Jack Smith e Taylor Mead fizeram desses fracassos aparentes ferramentas muito eficientes de esc\u00e1rnio e de par\u00f3dia que arru\u00ednam nossas expectativas, mergulhando a gente em um universo onde tudo (re)torna-se poss\u00edvel, onde nada \u00e9 exclu\u00eddo. O personagem de drag nunca pode ser confundido com uma mulher, o que \u00e9 afirmado \u00e9 o travestismo. As palavras e os comportamentos dos \u201catores\u201d parecem espont\u00e2neos, embora os filmes tenham sido escritos. Hello from Bertha (1981) \u00e9 baseado na pequena pe\u00e7a de Tenessee Williams, embora Nymph-O-Maniac (1984) tenha seu roteiro feito a partir de conversas telef\u00f3nicas sexuais e di\u00e1logos de filmes porn\u00f4s[14]. \u00a0Nos filmes de Mark Morrisroe, as repeti\u00e7\u00f5es sublinham o lado atuado da performance, embora pud\u00e9ssemos acreditar que \u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o direta, tal como Shirley Clarke em Portrait of Jason (1967).<\/p>\n<p>Lembra-se que Ronald Tavel recorria a estrat\u00e9gias h\u00e1beis para que os atores entregassem os seus textos, isso contra as interven\u00e7\u00f5es de Warhol e da sua equipe que se opunham de todo jeito, induzindo suspens\u00f5es na continuidade linear da a\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel encontrar tais suspens\u00f5es nos filmes de Mark Morrisroe, por exemplo na ocasi\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o de um discurso (tirado) de Jack Pierson \u00e0 pedido do operador de c\u00e2mera, \u00a0enquanto ele fala para Mark de drag : How come you\u2019re dress like a women? (\u201cPorqu\u00ea voc\u00ea est\u00e1 vestido de mulher?\u201d) \u00a0e depois : Are you one of those transexual? (\u201cVoc\u00ea \u00e9 um daqueles transexuais?\u201d). \u00a0Ruptura na continuidade da fic\u00e7\u00e3o ao benef\u00edcio de uma encena\u00e7\u00e3o. Invers\u00e3o das prioridades; o surgimento da heterogeneidade \u00e9 importante porque ela assina o artif\u00edcio: o jogo como pluralidade de varia\u00e7\u00f5es, de \u201cposs\u00edveis\u201d. A incorpora\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o evoca os preparativos sem fim de uma performance de Jack Smith, a performance se constituindo de fato, atrav\u00e9s desse deslocamento de objeto, no qual ela acontece. Existe uma vontade feroz de mostrar cenas que v\u00e3o chocar, ferir o bom gosto, nesse sentido Mark Morrisroe segue a linha maravilhosamente explorada por Jack Smith e John Waters em um registro, mas tamb\u00e9m v\u00e1rios artistas que trabalharam em minar o bom gosto \u201cbem assentado\u201d. Como Mike Kelley, Tony Oursler, Tony Conrad, Joe Gibbons, etc, Mark Morrisroe trabalha a partir disto, e brinca com os clich\u00eas, tais como da dec\u00eancia e do bom gosto. A quest\u00e3o do travestismo, da prostitui\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es \u00e9 central; cada filme nos mostra alguns momentos na vida de criaturas que lutam para sobreviver. N\u00f3s n\u00e3o estamos no mundo de Tenesse Williams ou de John Cassavattes, mas num mundo mais amargo, mais cru, menos psicol\u00f3gico, e isso, mesmo se Hello from Bertha<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-722 alignright\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/Hello-from-Bertha.jpg\" alt=\"Hello from Bertha\" width=\"384\" height=\"288\" \/> \u00e9 bem uma adapta\u00e7\u00e3o. \u00a0As rela\u00e7\u00f5es entre os protagonistas, se limitam a trocas que v\u00e3o da coniv\u00eancia \u00e0 repudia\u00e7\u00e3o, transitando por v\u00e1rias formas de viol\u00eancia verbal, desconcerto e viol\u00eancia f\u00edsica. Esse mundo \u00e9 mais sombrio que o de Jonh Waters, talvez porque a trama narrativa sempre est\u00e1 \u00e0 merc\u00ea de um erro do performer. A provoca\u00e7\u00e3o, o excesso s\u00e3o os motores, sempre mais na decrepitude, na decad\u00eancia, mas n\u00e3o pode se ver um julgamento moral qualquer, \u00e9 mais uma escolha est\u00e9tica que se quer trabalhar a partir do que \u00e9 pr\u00f3ximo a si, do que nos motiva, daquilo que nos habita. Assim, vestir-se de mulher, ter um papel fora de si, desviar os \u00a0c\u00f3digos dos g\u00eaneros sexuais e os ridicularizar por excesso de m\u00edmicas, de piscar de olho ou por desconcerto, permite afirmar \u2013 al\u00e9m da auto ironia, dos estados de subjetividades, dos brilhos \u2013 fragmentos de sujeitos que \u00a0a \u201cboa educa\u00e7\u00e3o\u201d desqualifica. Nesse trabalho n\u00e3o \u00e9 tanto a provoca\u00e7\u00e3o que importa, como as ofensas sobre os c\u00f3digos da masculinidade e da feminidade, que s\u00e3o progressivamente laminados. A atribui\u00e7\u00e3o dos papeis do g\u00eanero \u00e9 virado de cabe\u00e7a para baixo, ou pelo menos perturbada[1].<\/p>\n<p>Em The Laziest Girl in Town,<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-711\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/The-laziest-girl-in-town-1.jpeg\" alt=\"The laziest girl in town 1\" width=\"233\" height=\"175\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-712\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/The-laziest-girl-in-town-2.jpeg\" alt=\"The laziest girl in town 2\" width=\"233\" height=\"175\" \/>Mark fala da diferen\u00e7a entre um transexual e um travesti: \u201cum transsexual quer ser fisicamente mulher, embora um travesti gosta de vestir roupas \u00a0femininas, e \u00e9 o que eu gosto de fazer\u201d. Essa confus\u00e3o no g\u00eanero agrada os protagonistas, fazendo-os atuar com o maior cuidado, mesmo que\u00a0suas performances n\u00e3o correspondam \u00e0s expectativas e \u00e0 performatividade profissional pela qual o ator mergulha no papel que interpreta. Aqui, como em toda atitude campo, \u00e9 o jogo entre o personagem e o atuante que nos interessa, \u00e9 a oscila\u00e7\u00e3o entre os dois sujeitos que for\u00e7a o nosso interesse. A instabilidade do papel e do sujeito atravessa o filme, a performance manifesta assim possibilidades de subverter os pap\u00e9is sociais e suas atribui\u00e7\u00f5es, segundo as atitudes e comportamentos campo. Como diria Taylor Mead em um dos seus aforismos dos homens apegados aos seus pap\u00e9is do g\u00eanero: \u201cOs homens lindos que n\u00e3o sabem onde os seus talentos residem; escolham a arte, a heterossexualidade, tudo a fim de evitar o que vem naturalmente, ou o que eles teriam obtido de uma cabe\u00e7a aberta\u201d[2] Uma outra dimens\u00e3o que aproxima os filmes de Mark Morrisroe a os de Jack Smith e Taylor Mead, John Waters, mas tamb\u00e9m os de seus contempor\u00e2neos David Wojnarowicz e Nick Zedd, \u00e9 a necessidade deles. As urg\u00eancias deles testemunham suas energias. Cada filme prop\u00f5e um espa\u00e7o fechado, dentro do qual seres se usam e se abusam? H\u00e1 de se notar que o ambiente de Mark Morrisroe domina: as fotos adornam as paredes, na frente mexendo-se uma fauna que mesmo reduzida, revela um mundo que oscila entre drag e droga. As drags fofocam, falam dos seus desejos, \u201cEu realmente preciso de uma boa trepada\u201d Esse desejo \u00e9 mimicado em uma cena onde ele pratica masturba\u00e7\u00e3o anal com um pepino, depois em uma cena Jack estupra Mark de drag. Assim, a intimidade \u00e9 revelada e recomposta segundo as necessidades do filme, a partir do entorno de rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, amantes, amigos\u2026 O filme n\u00e3o revela auto retrato como o fazem as fotos, mas prop\u00f5e incurs\u00f5es nos mundos de Mark Morrisroe. Cada filme desenvolve momentos de subjetividades que questionam a sociedade atrav\u00e9s da homofobia e da defini\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is (It\u2019s all te same you\u2019re queer anyhow!). Nesse sentido, eles prolongam \u201ca celebra\u00e7\u00e3o de John Waters quanto \u00e0 natura abjeta da \u2018doidice\u2019, comparativamente \u00e0 sociedade americana\u201d. Para retomar uma an\u00e1lise de Mike Kelley.[3] Os filmes de Mark Morrisroe se d\u00e3o como sintomas culturais, eles assinam ao mesmo tempo a ades\u00e3o \u00e0 uma cultura dada, como ele a denuncia paradoxalmente. Os filmes de Mark Morrisroe frequentemente s\u00e3o apreendidos como \u201camadores\u201d; eles respondem \u00e0 mesma din\u00e2mica que as fotografias, assumem o lado supostamente amador, mostrando ao mesmo tempo que o cinema n\u00e3o \u00e9 um territ\u00f3rio reservado somente a pessoas patenteadas; nesse sentido eles dividem esse entusiasmo e essa democratiza\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica dos movimentos super 8 dos anos 80, antes que ela se amplie com o v\u00eddeo; assim como o trabalho dos ativistas da AIDS. Tomar posse do cinema, fazer cinema ou mais especificamente tornar seu o cinema, \u00e9 conseguir ao mesmo tempo fazer e mostrar as imagens de uma gera\u00e7\u00e3o, sem \u00a0media\u00e7\u00e3o externa. \u00c9 falar em seu nome, n\u00e3o ser dito por outrem. \u00c9 afirmar sua liberdade sem se satisfazer com aquela que seria proposta para n\u00f3s. \u00a0Todo trabalho de Mark Morrisroe participa deste processo de afirma\u00e7\u00e3o; mesmo que use a derris\u00e3o, a viol\u00eancia ou a destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o muda nada. A quest\u00e3o sempre \u00e9 de afirmar estados, movimentos, puls\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente rosas, limpas, ou ronronantes. As puls\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o civilizadas, elas s\u00e3o cruas e consequentemente mostradas sem artif\u00edcios (embora\u2026). A abertura de Nymph-O-Maniac (1984) \u00a0homenageia John Waters, colocando em cena uma criatura generosa que sem ser brilhante, liga para clientes potenciais, descrevendo suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas e o que ela poderia fazer. Encontramo-nos num mundo ilegal, fraudulento, constitu\u00eddo de prostitutas e l\u00e9sbicas que moram em um apartamento, cujas paredes est\u00e3o cobertas de fotos de revistas gays e de capas de LP. A c\u00e2mera viravolta um pouco \u00e0 maneira das sex comedies de Morrissey e Warhol; os cortes s\u00e3o bem aparentes quase strobes cut[4], os finais de bobinas super 8 \u00e0s vezes interrompem a narrativa para melhor relan\u00e7\u00e1-la por meio de um inter t\u00edtulo: Later, ou Later than evening\u2026 Em um dos planos, no banheiro, percebe-se brevemente no espelho Mark Morrisroe filmando esse dia na vida de uma ninfoman\u00edaca, que recebe \u00e0 noite dois homens que a empurram antes de amar\u00e1-la em uma cadeira e a estupram com um cabide met\u00e1lico, fazendo-a abortar, e depois cortam sua m\u00e3o direita. O filme acaba com a mulher xingando os dois agressores de bastardos. A viol\u00eancia nas cenas mostradas, principalmente a da m\u00e3o cortada, antecipa o bra\u00e7o arrancado de David Wojnarowicz em uma das suas narra\u00e7\u00f5es[5] de Manhattan Love Suicide (1985) de Richard Ken; filme, por\u00e9m, mais sanguenolento, pois elas ecoam a viol\u00eancia posta em cena pelo cinema da transgress\u00e3o. O ambiente geral do filme de Morrisroe evoca mais o clima e o humor negro dos filmes de Jonh Waters; pelo seu lado s\u00f3rdido e trash, mas ao contr\u00e1rio desse \u00faltimo, a a\u00e7\u00e3o se limita a um dia na vida de uma nin. Esse limite temporal n\u00e3o corresponde ao tempo da filmagem como foi o caso com Shirley Clark em Portrait of Jason. Mark Morrisroe n\u00e3o faz nem direct cinema, nem cinema verdade. Ele cria para\u00edsos artificiais, mais ou menos fe\u00e9ricos ou<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-709\" src=\"http:\/\/bcubico.com\/wp-content\/uploads\/OgAAAEk_4LSzM89Tc_Mykm1eUeIbd8CTt5rKdqYccVjzn_E8aVXvxTJ6LP01A5FHKKh_u7IWRPYXV9Re1z98A8JkxtgAm1T1UB5nS6do-IyYA4TorAbpdk9UYIw0.jpg\" alt=\"OgAAAEk_4LSzM89Tc_Mykm1eUeIbd8CTt5rKdqYccVjzn_E8aVXvxTJ6LP01A5FHKKh_u7IWRPYXV9Re1z98A8JkxtgAm1T1UB5nS6do-IyYA4TorAbpdk9UYIw0\" width=\"189\" height=\"252\" \/><\/p>\n<p>s\u00f3rdidos, que incorporam v\u00e1rios g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos. Eles antecipam um estado do cinema contempor\u00e2neo que descompartimenta e privilegia formas h\u00edbridas. O cinema permite a Mark Morrisroe trabalhar, ao mesmo tempo, a confus\u00e3o dos g\u00eaneros e suas representa\u00e7\u00f5es, a viol\u00eancia dom\u00e9stica cotidiana e dar a ouvir di\u00e1logos excessivos\u00a0que lembram os textos<\/p>\n<p>do seu Dirt Magazine (1975\/76). Os filmes n\u00e3o documentam um evento como se fosse o caso com o snuff, filme perdido da occis\u00e3o de um gato[6], mas eles testemunham de um modo de vida, de situa\u00e7\u00f5es geralmente pouco mostradas e vistas ainda menos. Morrisroe cria realidades, n\u00e3o faz remakes, a par\u00f3dia n\u00e3o \u00e9 o objeto primeiro do filme; nesse sentido ele se diferencia de v\u00e1rias produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas\u00a0que fazem da par\u00f3dia e do pastiche, seu objeto a partir de s\u00e9ries de tev\u00ea, como o faz com um humor \u00e1cido <a title=\"Leona\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ACXFHGanR7w\" target=\"_blank\">Leona<\/a>[7], favelada de Bel\u00e9m, numa par\u00f3dia das novelas da TV Globo.<\/p>\n<p>[1] Mark Morrisroe, ed Klaus Ottmann, pg 22 Twin Palm Publishers, Santa F\u00e9, 1999<\/p>\n<p>[2] Le pictorialisme veut inscrire l\u2019interpr\u00e9tation de l\u2019individu dans l\u2019espace de la photographie au moyen de\u2019effets d\u2019atmosph\u00e8res, textures etc qui induisent une distane vis-\u00e0-vis du r\u00e9eel photographi\u00e9. Il s\u2019agit d\u2019introduire une dimension picturale, quasiment tactile dans la photographie.<\/p>\n<p>[3] Boston School, Norman Bryson in catalogue du m\u00eame nom, ICA Boston, Primal Media, Alston, 1995<\/p>\n<p>[4] Rappelons que la grande exposition Big as Life (An American Histoy of 8mm) consacr\u00e9 au 8mm et super 8 organis\u00e9 par la San Francisco Cinemath\u00e8que et le MOMA NY, n\u2019incluait beaucoup de films \u00ab No Wave \u00bb, et encore moins de films d\u2019artistes. L\u2019exposition s\u2019est tenue en 1998-99, \u00e0 un moment ou les s\u00e9parations entre ces diff\u00e9rents milieux semblaient caduques\u2026<\/p>\n<p>[5] Le Cinema of Transgression surgit au milieu des ann\u00e9es 80 \u00e0 New York ses repr\u00e9sentants les plus connus sont Nick Zedd, Richard Kern, Manuel de Landa, Bradley Eros ; \u00a0ce mouvement a \u00e9t\u00e9 nourri par le No Wave Cinemaapparu quelques ann\u00e9es plus t\u00f4t, dans le Lower East Side. Parmi ses membres : Eric Mitchell, Scott and Beth B, John Lurie, Lizzie Borden, Vivan Dick, Bette Gordon et Michael McLard dont on retrouve la trace dans Ballad of Sexual Dependency, de Nan Goldin.<\/p>\n<p>[6] Dans lesquels on devrait inclure quelques s\u00e9quences de Chelsea Girls, mais aussi Trash ou Heat, et les vid\u00e9osVivian Girls et Fight.<\/p>\n<p>[7] Jack Pierson : Sometimes I think I\u2019d Rather Be a Movie Star than an Artist \u2013 Mark Morrisroe; Most Days I Think I\u2019d Rather Be a Photograph than a Human Being- Jack Pierson in \u00a0Artforum January, 1994<\/p>\n<p>[8] Doit-on y lire un clin d\u2019\u0153il malicieux au film de Duchamp An\u00e9mic Cin\u00e9ma (1924-26) qui \u00e0 la signature de Rose Selavy juxtapose son empreinte digitale<\/p>\n<p>[9] Peter Gidal, Malcolm LeGrice, Birgit et Willem Hein auquel on peut ajouter Ryszard Wasko, Joseph Robakowski. \u00a0Voir Stuctural Film Anthology de Peter Gidal, BFI Londres 1976 et Abstarct Film and Beyond de Malcolm Legrice Studio Vista Londres<\/p>\n<p>[10] Remarquons qu\u2019il s\u2019agit d\u2019une \u00e9poque qui face \u00e0 l\u2019irrution du Sida r\u00e9pond au moralisme et \u00e0 la d\u00e9n\u00e9gation des repr\u00e9sentations des pratiques homsexuelles par un activisme qui met en avnt des corps sensibles dans tous leurs \u00e9tats. Le champ de la photographie, du cin\u00e9ma et de la vid\u00e9o sont alors des outils privil\u00e9gi\u00e9s dans ces \u00e9closions subjectives<\/p>\n<p>[11] Notes on Camp, Partisan Review 1964<\/p>\n<p>[12] R\u00e9ponse in\u00e9dite de Taylor Mead \u00e0 une question de Catia Riccaboni, en avril 90<\/p>\n<p>[13] Richard Dyer : Now you see it \u00a0Studies on Lesbian and Gay Film, p. 103-04 Routlege, Londres 1990 Alors que \u00ab Flaming Creatures porte la marque de la la personnalit\u00e9 de Jack Smith, il n\u2019est pas une exploration de sa psych\u00e9, et ne r\u00e9v\u00e8le pas non plus le moi int\u00e9rieur des performers drag-queen qui sont l\u00e0 pour le spectacle. Il y a un glissement de la personnalit\u00e9 du cin\u00e9aste au profit de la personnalit\u00e9 du performer qui est aussi un d\u00e9placement de l\u2019exploration de personnalit\u00e9 comme r\u00e9alit\u00e9 int\u00e9rieure \u00e0 l\u2019observation d\u2019une surface externe. \u00bb<\/p>\n<p>[14] D\u2019apr\u00e8s Stuart Comer in Lipstick Traces: The Films of Mark Morrisroe in Mark Morrisroe, Catalogue exposion FotoMuseum Winterthur JRP Ringier, Zurich 2007<\/p>\n<p>[15] Sur ce trouble des genres voir Jean-Yves le Talec: Folles de France \u00e9ditions la d\u00e9couverte, Paris 2008<\/p>\n<p>[16] Taylor Mead : On Amphetamine and in Europe, Exerpts from the Anonymous Diary of A New York Youth Vol 3, p 131, Boss Books New York 1968<\/p>\n<p>[17] Cross-Gender \/ Cross-Genre, in Mike Kelley Foul Perfection p 104-105 MIT Press 2003<\/p>\n<p>[18] Les strobe cut ont \u00e9t\u00e9 utilis\u00e9s par Anthony Balch et W.S. Burroughs dans The cup-ups (1966) mais surtout ar Warhol dans Bufferin (1966). Un strobe cut est un plan pr\u00e9ced\u00e9 d\u2019un photogramme blanc qui induit ainsi un flash illuminant le plan.<\/p>\n<p>[19] Il s\u2019agit de Stray Dogs, dans laquelle David Wojnarowicz, joue le r\u00f4le d\u2019un jeune gay qui n\u2019arrive \u00e0 capter l\u2019attention d\u2019un peintre que lorsqu\u2019il s\u2019est arrach\u00e9 un bras.<\/p>\n<p>[20] Ramsey McPhillips raconte l\u2019histoire de ce film et de sa diffusion sur une chaine locale de Boston dans le Pat Hearn Show in : Who Turned Out the Limelight? The Tragi-Comedy of Mark Morrisroe, in Loss Within Loss, p 99 edited by Edmund White, University of Wisconsin Press, Madison 2001<\/p>\n<p>[21] Voir sur you tube la s\u00e9rie Leona a Assassina Vingativa, e Meu nome e Leona<\/p>\n<p>yann beauvais<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: B\u00b3 \/ Claire Laribe<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>publicado em franc\u00eas em Gruppen n\u00b04, Hiver 2012, Mont de Marsan e dado como palestra no cclo o tempo das imagens # 5, B3, Recife Minha vida Inf\u00e2ncia + Judy Garland Escola + impopularidade Vizinhan\u00e7a prejudicial Mudan\u00e7a traumatizante Puberdade + revista de putaria Sair de casa Prostitui\u00e7\u00e3o + celebridade Levado um tiro Trauma do lar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[9,6],"tags":[91,60,44,26],"class_list":["post-1199","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cineastes","category-ecrits","tag-camp","tag-gay","tag-photo","tag-super-8"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1199"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1199\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1204,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1199\/revisions\/1204"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}