{"id":1235,"date":"2015-02-23T14:08:03","date_gmt":"2015-02-23T13:08:03","guid":{"rendered":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=1235"},"modified":"2015-02-23T14:11:52","modified_gmt":"2015-02-23T13:11:52","slug":"ryan-trecartin-o-cinema-mutante-a-internet-real-esta-em-voces-pt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=1235","title":{"rendered":"Ryan Trecartin O cinema mutante A internet real esta em voc\u00eas ! (Pt)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"CENTER\">No in\u00edcio de 2000, Ryan Trecartin comen\u00e7ou a realizar\u00a0videos singulares. Singulares porque eles retratam um grupo em constante, e tamb\u00e9m mostram como as novas tecnologias e redes abalaram, e at\u00e9 mesmo hoje continuam abalando, nossas rela\u00e7\u00f5es e nossos comportamentos, seja em se tratando do usu\u00e1rio, do elaborar, do processamento e da transforma\u00e7\u00e3o dos aspectos audiovisuais que elas implicam, e que fazem os seus filmes\u00a0parecerem estar em constante devir.<\/p>\n<p>Estes primeiros trabalhos apresentam personagens que desempenham um papel, o seu pr\u00f3prio ou o de um avatar qualquer . Este personagem real ou fict\u00edcio n\u00e3o se origina do \u00ab\u00a0<i>encontro casual em uma mesa de disseca\u00e7\u00e3o de uma m\u00e1quina de costura e um guarda-chuva<\/i>\u00a0\u00bb, mas baseia-se na presen\u00e7a explosiva de diferentes programas de televis\u00e3o (tipo talk show ou Big Brother Brasil) a partir de um cotidiano banal. Este cotidiano \u00e9 atingido pela farsa de um humor <i>trash<\/i> et <i>camp<\/i>, e ver se enxertar nele um novo campo aut\u00f4nomo que concerne a apar\u00eancia e a muta\u00e7\u00e3o constituintes de imagens e sons.<\/p>\n<p>Se a erup\u00e7\u00e3o do mon\u00f3logo, da conversa para a c\u00e2mera n\u00e3o \u00e9 nova como podemos encontrar em Andy Warhol e muitos outros diaristas, (como Boris Lehman, Anne Charlotte Robertson, Nelson Sullivan ou Jonathan Caouette) j\u00e1 fizeram a sua fala \u201cuma partilha\u201d. No entanto, essa fala assume uma nova dimens\u00e3o com as ferramentas da web, que nos habitaaram as redes sociais ou as plataformas de difus\u00e3o. Ao contr\u00e1rio das \u201cEstrelas\u201d da Factory de Warhol que dirigiam para si mesmos, tanto quanto para a c\u00e2mera, brincando com a possibilidade de uma conversa aparente, a fala \u00e9 agora mais diretamente narcisista. Falando para a c\u00e2mera, o nosso discurso e a nossa pr\u00f3pria imagem est\u00e3o imediatamente dispon\u00edveis e potencialmente acess\u00edveis para muitas pessoas. O volume e tom da voz podem ser manipulado. A voz nem sempre corresponde ao g\u00eanero da pessoa que a expressa, e essa incongru\u00eancia revela a extens\u00e3o das manipula\u00e7\u00f5es execudatas pelo artista na p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o, manipula\u00e7\u00f5es que afetam a \u00ab\u00a0doce\u00a0\u00bb irrealidade de um cotidiano pelo menos assistido (na televis\u00e3o realidade como ready-made assistido). O som da voz, como qualquer outro atributo do personagem s\u00e3o pensados como ferramentas, aplicativos e, portanto, transcende as id\u00e9ias de pertencimento a um personagem definido.<\/p>\n<p>Desde os primeiros trabalhos de Ryan Trecartin estamos imersos em um universo composto (no sentido definido Lev Manovich). Um universo fotogr\u00e1fico e sonoro criado a partir de um real modificado (encenado, roteirizado, interpretado), mas tamb\u00e9m procede da realidade de efeitos digitais aplicados ao som e \u00e0 imagem desse real. Os filmes de Ryan Trecartin fundem essas duas inst\u00e2ncias da realidade para criar um mundo contempor\u00e2neo no qual m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es da realidade se atualizam ao mesmo tempo. N\u00f3s n\u00e3o estamos na presen\u00e7a da disjun\u00e7\u00e3o, mas do excesso. As realidades distintas que s\u00e3o essas duas etapas da produ\u00e7\u00e3o de um filme s\u00e3o ent\u00e3o colocadas a servi\u00e7o, n\u00e3o do seu apagamento \u2013 como \u00e9 o caso dos filmes de Hollywood que escondem a tecnologia para supervalorizar os efeitos especiais \u2013 mas para lhe mostrar na produ\u00e7\u00e3o de uma realidade \u00ab\u00a0comp\u00f3sito\u00a0\u00bb que afirma estes dois momentos simultaneamente. Em vez de elaborar um espa\u00e7o virtual cont\u00ednuo, como faz os filmes de divers\u00e3o, alisando, suavizado as superf\u00edcies, Trecartin, como Nam June Paik nas suas obras, preserva as fronteiras entre o mundo fotografico registrado e as imagens geradas, e com elas todos os tra\u00e7os que permitem estabelecer um choque de mundos, tanto quanto de culturas. Esse confronto \u00e9 o centro do dispositivo narrativo desenvolvido pelo artista atrav\u00e9s de seus retratos de grupo, e no qual o banal e o cotidiano podem deparar a cada clique ou declique. A reifica\u00e7\u00e3o do banal nos primeiro v\u00eddeos de Trecartin, est\u00e1 associada a banaliza\u00e7\u00e3o dos efeitos digitais b\u00e1sicos espec\u00edficos dos softwares como i-movie. Esse duplo movimento atravessa a abordagem do artista que brinca com, e se diverte alegremente de todas as armadilhas de uma cr\u00edtica frontal que alimenta os usos do mundo contempor\u00e2neo. N\u00e3o se trata de denunciar as rupturas de comportamentos que a televis\u00e3o e a Internet introduziram moldando novas atitudes e novas formas de rela\u00e7\u00f5es, mas sim de compor com elas, e de ver como podemos transcend\u00ea-las.<\/p>\n<p>O primeiro video de Trecartin, <i>Kitchen Girl <\/i>(2001<a title=\"Kitchen Girl\" href=\")http:\/\/www.ubu.com\/film\/trecartin_kitchengirl.html%20\" target=\"_blank\">)http:\/\/www.ubu.com\/film\/trecartin_kitchengirl.html\u00a0<\/a>, parece ser um pastiche, e demonstra a influ\u00eancia de pessoas como Mike Kelly e Paul McCarthy, sem esquecer Tony Oursler, muitos artistas em que o mau gosto se erguiu como uma cr\u00edtica de uma vida cujas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o bastante alienante. Mas essas influ\u00eancias que percebemos s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es nossas. Ryan Trecartin n\u00e3o sabia desses artistas. Com<i>Kitchen Girl<\/i> estamos na presen\u00e7a de um \u201c<i>mal feito bem formatado<\/i>\u201c, mas no qual, a dimens\u00e3o l\u00fadica da web ainda n\u00e3o era afirmada como modo de propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trecartin opera esta passagem\u00a0com uma pol\u00edtica do excesso, uma acumula\u00e7\u00e3o de imagens e informa\u00e7\u00f5es textuais ou sonoras.Esse ac\u00famulo tamb\u00e9m afeta os personagens que deslizam de um g\u00eanero para outro, o que se travestem de um plano para outro, mudam de voz, ou at\u00e9 mesmo, s\u00e3o modificados pelos efeitos do sotfware. Se seu pertencimento a um g\u00eanero se limita \u00e0 maquiagem, a quest\u00e3o do g\u00eanero, confinar\u00e1-se ent\u00e3o a sua dimens\u00e3o teatral, e se opor\u00e1 assim a compreens\u00e3o de Judith Butler quando afirma que o \u201c<i>g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 um artif\u00edcio que se coloca ou se tira a seu crit\u00e9rio\u2026<\/i>\u201c. Isso quer dizer portanto que a quest\u00e3o do g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 evacuada neste artificio da maquiagem. Para Ryan Trecartin, os g\u00eaneros n\u00e3o s\u00e3o definitivamente fixados a um tipo de sexualidade \u2013 de fato, a sexualidade n\u00e3o \u00e9 muito presente em seu trabalho \u2013 eles est\u00e3o sujeitos a v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es \u2013 os transg\u00eaneros sendo um daqueles que se manifestam mais freq\u00fcentemente \u2013 tranforma\u00e7\u00f5es que podem habitar a mesma pessoa, simultaneamente ou sucessivamente. Como ele admite falando sobre seus personagens, o que lhe interessa \u00e9 a instabilidade na defini\u00e7\u00e3o e atribui\u00e7\u00e3o de um g\u00eanero, e essa indetermina\u00e7\u00e3o ou oscila\u00e7\u00e3o para o trans\/g\u00eanero. \u00ab\u00a0<i>Isso parece mais \u00e0 distor\u00e7\u00e3o de uma perspectiva e a cria\u00e7\u00e3o de um g\u00eanero pessoal, a uma mudan\u00e7a perp\u00e9tua e uma inconsist\u00eancia. Eu a percebo como uma sexualidade distanciada do genital para a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o pessoal ou de estruturas de percep\u00e7\u00e3o individualizadas<\/i> \u201c.<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">Em <i>I Be Aera <\/i>(2007),<a href=\"http:\/\/www.ubu.com\/film\/trecartin_area.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.ubu.com\/film\/trecartin_area.html<\/a>\u00a0as quest\u00f5es do g\u00e9nero tomaram uma outra dimens\u00e3o em qual \u00ab\u00a0cross dressing, cross-identifica\u00e7\u00e3o e cross pensamento fazem parte de um estado de ser, n\u00e3o como declara\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u00a0. (Cotter Holland). Neste video, Ryan Trecartin \u00e9 I Be II, mais tamb\u00e9m o clone muito independente dele com o nome I Be A video e um dia na vida deste personagem. Neste video ele \u00e9 uma mo\u00e7a chamada Oliver e um outra \/outro chamada\/o Pasta que tem um corte de cabelo ala holandesa&#8230;<\/p>\n<p lang=\"pt-PT\">extrato<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio de 2000, Ryan Trecartin comen\u00e7ou a realizar\u00a0videos singulares. Singulares porque eles retratam um grupo em constante, e tamb\u00e9m mostram como as novas tecnologias e redes abalaram, e at\u00e9 mesmo hoje continuam abalando, nossas rela\u00e7\u00f5es e nossos comportamentos, seja em se tratando do usu\u00e1rio, do elaborar, do processamento e da transforma\u00e7\u00e3o dos aspectos audiovisuais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[9,6],"tags":[175,176],"class_list":["post-1235","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cineastes","category-ecrits","tag-genero","tag-internet"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1235","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1235"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1235\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1237,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1235\/revisions\/1237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}