{"id":51,"date":"2014-03-02T12:51:00","date_gmt":"2014-03-02T11:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=51"},"modified":"2015-01-29T21:52:26","modified_gmt":"2015-01-29T20:52:26","slug":"fonografia-de-thelmo-cristovam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=51","title":{"rendered":"Fonografia de Thelmo Cristovam (Pt)"},"content":{"rendered":"<p><em>Revista N\u00f3s Contempor\u00e2neos VAZ\u00c3O n\u00b071<\/em> BarrusM\u00c0IMPRESS\u00c3Oeditora, Recife, Junho 2012<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos Thelmo Cristovam cria paisagens sonoras designadas com o nome gen\u00e9rico de Fonografia.<br \/>\nThelmo Cristovam \u00e9, antes de tudo, um artista sonoro, que toca diferentes instrumentos de sopro privilegiando a improvisa\u00e7\u00e3o, interessando-se, ao mesmo tempo, pela grava\u00e7\u00e3o sonora em um espa\u00e7o urbano ou na natureza. Em todos os casos, ele privilegia o som, seja ele gravado ou tocado. O som \u00e9 o objeto de seu trabalho. As fontes sonoras s\u00e3o m\u00faltiplas\u00a0; assim, a paleta de trabalho do artista \u00e9 extensa e ao lado de sons \u201cnaturais\u201d encontramos tamb\u00e9m tanto ru\u00eddos digitais quanto sons de instrumentos de m\u00fasica.<br \/>\nA ideia de trabalhar a paisagem sonora remete ao visual e \u00e0s suas modalidades de construir a paisagem, por\u00e9m, diferentemente do que acontece na vis\u00e3o, s\u00f3 podemos nos abstrair do ambiente sonoro parcialmente. N\u00e3o podemos fechar os ouvidos, como fechamos os olhos. Somos seres de sons, quer se trate de sons corporais ou dos que nos rodeiam, nos isolam, ou submergem&#8230;<br \/>\nEm suma, n\u00e3o se escapa do som. A ideia de produzir paisagens sonoras levar\u00e1 em conta essas camadas e estratos sonoros que nos atravessam, seja isolando-os a fim de nos fazer descobrir aspectos at\u00e9 ent\u00e3o impercept\u00edveis, seja acrescentando-os \u00e0queles de nosso cotidiano, ou ainda (re) criando experi\u00eancias sonoras singulares.<br \/>\nSe a ideia do soundscape \u00e9 a vers\u00e3o \u00e1udio do landscape, ainda assim essa no\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 sua defini\u00e7\u00e3o criada por Raymond Murray Schafer nos anos 70\u00a0: \u00e9 \u00ab\u00a0o ambiente sonoro. Tecnicamente, [o soundscape] \u00e9 toda por\u00e7\u00e3o do ambiente sonoro vista como um campo de estudo.[1]\u00a0\u00bb (Schafer, 1997, p. 366)). Portanto, para quem a concebe, a paisagem sonora \u00e9 um ambiente que se estuda. \u00c9, pois, um campo delimitado, pode se referir a ambientes que j\u00e1 existem ou a constru\u00e7\u00f5es. Admite-se, portanto, a priori, que uma paisagem sonora possa ser constru\u00edda e n\u00e3o apenas extra\u00edda, \u00e0 maneira de uma simples grava\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCom frequ\u00eancia, quando se fala de paisagem sonora, n\u00e3o se pode deixar de lado as rela\u00e7\u00f5es complexas entre a paisagem e o conceito de natureza. Nesse caso, op\u00f5e-se aos sons ditos naturais &#8211; o som dos elementos, dos animais, de paisagens naturais &#8211; os sons urbanos.<br \/>\n\u00c9 preciso, de sa\u00edda, distinguir a percep\u00e7\u00e3o desses sons\u00a0: a escuta direta de um ambiente sonoro no qual estamos imersos, daquela que foi gravada e que manifesta a dist\u00e2ncia patente entre a fonte (a emiss\u00e3o) e sua restitui\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o (difus\u00e3o). Com efeito, esses dois mundos sofrem quase de uma incompatibilidade de fato. Quando estamos num ambiente sonoro qualquer, a experi\u00eancia que fazemos do espa\u00e7o sonoro \u00e9 tribut\u00e1ria de nossa posi\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o, nossos movimentos modificam a percep\u00e7\u00e3o e qualificam a profundidade, a opacidade do pr\u00f3prio espa\u00e7o sonoro. Quando escutamos com fones de ouvido uma paisagem sonora, estamos quase diante de uma tela, os deslocamentos sonoros s\u00e3o recebidos e n\u00e3o gerados por n\u00f3s. Somos separados das fontes e nos tornamos espectadores indiretos\u00a0: assistimos ao espet\u00e1culo da natureza gravada\u00a0! \u00c9 nesse ponto preciso da capta\u00e7\u00e3o, da sele\u00e7\u00e3o, da montagem que se efetua, entre outros, o gesto do m\u00fasico. Para Thelmo Cristovam, n\u00e3o se trata de fazer um document\u00e1rio. Para al\u00e9m da especificidade de lugares, de tempos e de dura\u00e7\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o, a obra se funda na explora\u00e7\u00e3o das possibilidades oferecidas pelo material. \u00c9 a qualidade do material, definido tanto pelas escolhas dos instrumentos a partir dos quais ela foi realizada, quanto pela natureza do espa\u00e7o investido, que engendra a sele\u00e7\u00e3o, a transforma\u00e7\u00e3o parcial ou radical do documento de origem. O que est\u00e1 em jogo aqui n\u00e3o \u00e9 tanto a reprodu\u00e7\u00e3o, e sim a produ\u00e7\u00e3o de uma paisagem sonora. Assim, quando Thelmo vai para o sert\u00e3o, ou para a floresta para fazer suas grava\u00e7\u00f5es, o que o motiva \u00e9 a riqueza dos elementos sonoros, a densidade das camadas de sons, suas texturas&#8230; na qual nem sempre prestamos aten\u00e7\u00e3o, mas que uma escuta atenta poder\u00e1 salientar ou nos fazer descobrir\u00a0; \u00e9 nesse sentido que se falar\u00e1 de uma escuta dirigida pelo captador de som, mas tamb\u00e9m por aquele que trabalha, isola no material linhas de sons que seguem em dire\u00e7\u00f5es distintas. Como o m\u00fasico reconhece\u00a0: \u00ab\u00a0Estou me dedicando a mapear os sons naturais do estado de Pernambuco porque eles s\u00e3o singulares.\u00a0\u00bb A localiza\u00e7\u00e3o, a hora da capta\u00e7\u00e3o s\u00e3o essenciais, pois prefiguram e modelam a pe\u00e7a sonora que ser\u00e1 criada. A decis\u00e3o relativa \u00e0 capta\u00e7\u00e3o gera a montagem que, \u00e0s vezes, consiste em um simples corte seco. \u00ab\u00a0Algumas vezes a grava\u00e7\u00e3o se aproxima tanto do que eu queria que basta uma escolha do trecho da publica\u00e7\u00e3o pra publicar, um corte seco no come\u00e7o e outro no final[2].\u00a0\u00bb O m\u00fasico compartilha a atitude dos cineastas experimentais e documentaristas que, conscientes das qualidades intr\u00ednsecas do documento filmado, limitam-se a decidir selecionar um in\u00edcio e um fim de uma sequ\u00eancia filmada. O filme e a pe\u00e7a sonora n\u00e3o funcionam como um document\u00e1rio atrav\u00e9s de um conjunto de valida\u00e7\u00e3o quanto ao real, seu mimetismo, sua fidelidade&#8230;, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a veracidade da pe\u00e7a, que se constitui como uma realidade separada da simples reprodu\u00e7\u00e3o. \u00c9 a dist\u00e2ncia entre o gravado e a reprodu\u00e7\u00e3o que induz essa mudan\u00e7a de status dinamizado pela escuta. Assim, em certas fonografias, a montagem \u00e9 intensa e, no entanto, n\u00e3o se deixa apreender no momento da escuta. A artificialidade da paisagem sonora n\u00e3o se revela na escuta, somente no momento de sua feitura, mas a paisagem, esta sim, se constitui no momento da escuta. Como Thelmo observa\u00a0: \u00ab\u00a0E tudo isto, ap\u00f3s, caso seja necess\u00e1rio, muita edi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deve ser notado, o resultado final deve ser indistingu\u00edvel de um ambiente \u00ab\u00a0natural\u00a0\u00bb, ou seja, eu tento recriar paisagens sonoras.[3]\u00a0\u00bb A paisagem sonora criada vai responder a v\u00e1rias especificidades da escuta\u00a0: um ambiente imersivo particular, ou seja, destacado de suas fontes. Estamos na (re) produ\u00e7\u00e3o, ou, mais exatamente, no trabalho da representa\u00e7\u00e3o aplicada ao som, e isso acarreta um grande n\u00famero de quest\u00f5es relativas ao contexto no qual a e se d\u00e1, sua disposi\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o&#8230;<br \/>\nYann Beauvais<br \/>\n(Tradu\u00e7\u00e3o\u00a0: Eloisa Ara\u00fajo Ribeiro)<\/p>\n<p>[1] R. Murray Schafer\u00a0: The Soundscape, our sonic environment and the turning of the world, 1977, Knopf, reed Destiny Books, 1994. SHAFER, R. Murray. A afina\u00e7\u00e3o do Mundo. S\u00e3o Paulo\u00a0: Editora UNESP, 2001. (Tradu\u00e7\u00e3o\u00a0: nome do tradutor)<br \/>\n[2] E.mail de Thelmo Cristovam do dia 27 de maio de 2012.<br \/>\n[3] Idem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista N\u00f3s Contempor\u00e2neos VAZ\u00c3O n\u00b071 BarrusM\u00c0IMPRESS\u00c3Oeditora, Recife, Junho 2012 H\u00e1 alguns anos Thelmo Cristovam cria paisagens sonoras designadas com o nome gen\u00e9rico de Fonografia. Thelmo Cristovam \u00e9, antes de tudo, um artista sonoro, que toca diferentes instrumentos de sopro privilegiando a improvisa\u00e7\u00e3o, interessando-se, ao mesmo tempo, pela grava\u00e7\u00e3o sonora em um espa\u00e7o urbano ou na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[9,6],"tags":[],"class_list":["post-51","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cineastes","category-ecrits"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/51","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=51"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/51\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1141,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/51\/revisions\/1141"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=51"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=51"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=51"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}