{"id":564,"date":"2014-08-06T14:36:11","date_gmt":"2014-08-06T13:36:11","guid":{"rendered":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=564"},"modified":"2020-05-22T17:28:28","modified_gmt":"2020-05-22T16:28:28","slug":"o-super-8-e-liberdade-uma-revisao-do-cinema-do-gesto-pequeno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/yannbeauvais.com\/?p=564","title":{"rendered":"O Super 8 \u00e9 liberdade: uma revis\u00e3o do cinema do gesto pequeno"},"content":{"rendered":"<p>em portugu\u00eas em \u00a0<em>Cinena \u00e9 liberdade Derek Jarman<\/em>, organiza\u00e7\u00e3o : Alessandra Casta\u00f1eda, Raphael Fonseca, \u00a0Victor Dias, Rio de Janeiro, Jurubera Produ\u00e7\u00f5es, 2014<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 1\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Recife, junho 2014<\/p>\n<p>Foi no final dos anos 1970, ou talvez no ini\u0301cio dos 1980, em Paris, em uma e\u0301poca em que era possi\u0301vel encontrar um programa de cinema experimental cotidianamente no Centro Georges Pompidou.<\/p>\n<p>Foi a primeira vez que travei conhecimento com Derek Jarman, e foi uma experie\u0302ncia bastante poderosa. O cineasta estava exibindo seus filmes em Super-8, na\u0303o da cabine de projec\u0327a\u0303o, mas dentro da sala, entre no\u0301s, e ele estava coordenando o dia\u0301logo entre o som nos filmes e o som na fita que ele estava carregando nos filmes que estava projetando. Notei que o artista estava fazendo em pu\u0301blico algo que com freque\u0302ncia e\u0301 privado, a projec\u0327a\u0303o de dia\u0301rios. Sua projec\u0327a\u0303o e\u0301 geralmente uma experie\u0302ncia compartilhada com a fami\u0301lia, em um ci\u0301rculo de amigos ou de relac\u0327o\u0303es estreitas, mas isso na\u0303o foi antes de Jonas Mekas e alguns outros terem feito disto uma experie\u0302ncia pu\u0301blica. Jonas Mekas transformou a experie\u0302ncia na fami\u0301lia estendida dos cineastas de vanguarda. Aqui, Derek Jarman estava mostrando, obviamente, um outro tipo de filme- dia\u0301rio, que combinava diferentes categorias, como retratos, paisagens de viagem, um evento a\u0300 noite&#8230;<\/p>\n<p>Podia-se ver que o conjunto de filmes tinha sido submetido tanto a\u0300 vontade do cineasta quanto ao que ele estava sentindo do pu\u0301blico. Isto ilustrou de uma maneira diferente que uma interac\u0327a\u0303o era possi\u0301vel nas exibic\u0327o\u0303es dos filmes, que fazia na\u0303o ser a mesma uma repetic\u0327a\u0303o com suas co\u0301pias, mas um evento pro\u0301ximo a um acontecimento ou a uma performance ao vivo.<\/p>\n<p>A segunda coisa que me surpreendeu foi que ele estava adicionando mu\u0301sica de acordo com seu estado de espi\u0301rito, um pouco como Jack Smith costumava fazer quando apresentava <em>Flaming Creatures<\/em> (o que eu descobri mais tarde quando o convidei para exibir os seus filmes no Scratch [exibic\u0327o\u0303es semanais de filmes marginais] em meados dos anos 1980). A experie\u0302ncia foi diferente porque em um caso teve o uso do vinil, a busca de um LP especi\u0301fico, enquanto no outro foi usado um gravador buscando trilhas. A fisicalidade da ac\u0327a\u0303o foi dominante com Jack Smith. Mas ambos exploraram o <em>camp<\/em> em seus filmes, isto nunca foi posto de lado nos filmes de Derek Jarman, fossem em Super-8 ou longas-metragens.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 2\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>O uso da mu\u0301sica era parte deste cli\u0301max e estava sujeito a dar cor a\u0300s seque\u0302ncias de diferentes maneiras, surfando, por exemplo, em romantismo no segundo movimento do Concerto para a ma\u0303o esquerda de piano de Ravel enquanto mostrava um retrato de um amante em uma suave ca\u0302mera lenta. Uma caracteri\u0301stica de alguns filmes foi a utilizac\u0327a\u0303o da ca\u0302mera lenta, em uma velocidade mais lenta do que os habituais 18 quadros por segundo. A velocidade da projec\u0327a\u0303o parecia estar ecoando a mu\u0301sica, ou talvez fosse a mu\u0301sica que estivesse no ritmo da edic\u0327a\u0303o, criando uma forte sincronizac\u0327a\u0303o que sera\u0301 vista \/ explorada em seus u\u0301ltimos clipes. Isso na\u0303o era incomum para Derek, pelo menos desde o final dos anos 1970, quando ele apresentou filmes com seus pro\u0301prios projetores Bolex Super-81. Nos anos 1980, Jarman fara\u0301 videoclipes para diferentes mu\u0301sicos (Genesis P-Orridge e sua banda Throbbing Gristle, ou cantores <em>mainstream<\/em>, como Marianne Faithfull, ou grupos como The Smiths2, Pet Shop Boys &#8230;).<\/p>\n<p>Quando Derek Jarman comec\u0327ou a fazer seus filmes de gestos pequenos, o filme materialista estrutural estava dominando a produc\u0327a\u0303o de filmes experimentais na Inglaterra. Seus filmes foram um ataque direto a\u0300 semente desta tende\u0302ncia, no sentido de ele estar afirmando uma subjetividade, uma sexualidade, enquanto os outros estavam abordando questo\u0303es referentes ao que o filme era e como funcionava ideologicamente. Como o artista escreveu, ele comec\u0327ou a fazer filmes em Super-8 como uma resposta direta a\u0300 sua exposic\u0327a\u0303o ao cinema comercial. Ele era o ceno\u0301grafo do filme <em>Os demo\u0302nios<\/em> (<em>The Devils<\/em>) de Ken Russell e inicia uma produc\u0327a\u0303o de filmes \u201cpessoais\u201d. Descobriu naquela e\u0301poca que o filme era um meio contempora\u0302neo, como reconheceu em uma entrevista falando sobre <em>Imagining October<\/em>: \u201cQua\u0303o extraordina\u0301rio e\u0301 o filme. A pintura e\u0301 obsoleta em um sentido; na\u0303o lida mais com o mundo exterior. O que eu descobri no filme foi uma comunidade. Eu descobri o meu mundo no filme\u201d. A aventura de <em>Os demo\u0302nios<\/em> levou pouco mais de um ano na preparac\u0327a\u0303o, e a partir do outono daquele ano foi que \u201cmeus pro\u0301prios filmes decolaram com a ajuda de Malcolm Leigh; sendo seguidos por toda uma se\u0301rie de Super-8 que gradualmente, sem me dar conta, reposiciou o meu trabalho\u201d3. Mas, como reconheceu, na\u0303o sera\u0301 antes de ele completar <em>Art of Mirrors<\/em>, que e\u0301 \u201co primeiro filme que fizemos em Super-8 e para o qual na\u0303o ha\u0301 para\u0302metro de comparac\u0327a\u0303o. Os outros Super-8 dos u\u0301ltimos meses ainda sa\u0303o muito assemelhados ao trabalho de 16 mm, considerando que isso e\u0301 algo que so\u0301 poderia ser feito com uma ca\u0302mera de Super-8, com a <em>built-in-meters<\/em> e com efeitos. Finalmente, temos algo completamente novo\u201d4.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>O Super-8 tornou-se um instrumento para atacar a arte do retrato, para investigar a paisagem e para registar eventos, fossem pu\u0301blicos ou privados. O uso da sobreposic\u0327a\u0303o deu aos filmes uma qualidade picto\u0301rica, reforc\u0327ada pela granulac\u0327a\u0303o (especialmente quando filmado em preto e branco) e pela projec\u0327a\u0303o em velocidade mais lenta. Como Tony Rains disse: \u201cFoi durante as longas e enervantes noites em seu apartamento da Sloane Square, no ini\u0301cio dos anos 1970, que Jarman comec\u0327ou a experimentar a projec\u0327a\u0303o com uma velocidade ultrabaixa, descobrindo que sua filmagem desorganizada e impulsiva adquiriu conotac\u0327o\u0303es \u2018picto\u0301ricas\u2019 quando examinada quadro a quadro. Foi um pequeno passo da sua descoberta para novas experie\u0302ncias com o processo de reprofotografia da tela e sobreposic\u0327a\u0303o mu\u0301ltipla. Novamente, no entanto, na\u0303o houve qualquer tentativa de exercer controle arti\u0301stico nesses processos: os filmes resultantes foram, essencialmente, alegremente arbitra\u0301rios\u201d5. Pequenas viagens, noites no estu\u0301dio de Derek, retratos de amigos e amantes tornaram- se a esse\u0302ncia de seus filmes em Super-8 e um recurso para os longas. Uma se\u0301rie de filmes da\u0301 a ideia da Londres gay dos anos 1970, com o retrato de amantes ou eventos como homens travestidos para a Alternative Miss World Party (1972). Se, num primeiro momento, o entorno imediato do artista era seu principal foco, as coisas va\u0303o mudar com<em> Jubilee<\/em> (1978), que ira\u0301 incorporar provocac\u0327o\u0303es poli\u0301ticas sobre a condic\u0327a\u0303o do cinema da Inglaterra e brita\u0302nico. Filmar e\u0301 de tal forma viciante que no ini\u0301cio Derek Jarman comec\u0327ou a colagem de alguns de seus rolos de Super-8 para fazer obras maiores, em que I<em>n the Shadow of the Sun<\/em> (1984), <em>The Angelic Conversation<\/em> (1987) e<em> Glitterbug<\/em> (1994) sa\u0303o os melhores exemplos. Esses filmes sa\u0303o bons exemplos do \u201ccinema dos gestos pequenos\u201d que Jarman estava interessado em fazer. Por um lado, este cinema e\u0301 autobiogra\u0301fico, pessoal, esponta\u0302neo e leve, por outro lado, amiga\u0301vel, um cinema envolvido com a mitologia e o simbolismo, como se pode ver com <em>A Journey to Avebury<\/em> (1971), <em>Art of Mirrors<\/em> (1973 ), <em>The Angelic Conversation<\/em>, <em>The Dream Machine<\/em> (1984)&#8230;<\/p>\n<p>O Super-8 era um espac\u0327o possi\u0301vel para produzir e mostrar imagens de si mesmo, de seu pro\u0301prio mundo, fora das normas repressivas hetero, que exclui\u0301am e apagavam violentamente qualquer diferenc\u0327a, especialmente se isso tivesse a ver com masculinidade, de uma forma tal que na\u0303o havia outra alternativa a na\u0303o ser resistir contra esta viole\u0302ncia com uma afirmac\u0327a\u0303o provocativa, imagens a fim de quebrar esses valores morais alc\u0327ados como este\u0301ticos. Estas representac\u0327o\u0303es que afirmam uma paisagem i\u0301ntima do desejo va\u0303o se tornar mais abertamente militante em meados dos anos 1980 e dos anos 1990. Essa mudanc\u0327a so\u0301 foi possi\u0301vel com a sua proximidade com a Frente de Libertac\u0327a\u0303o Gay6 e a dina\u0302mica do Partido Revoluciona\u0301rio dos Trabalhadores e seu jornal <em>NewLine<\/em>7. Para Derek Jarman, fossem os filmes Super-8, 16 mm ou 35 mm, deveriam desafiar nossa visa\u0303o e dar acesso a\u0300 representac\u0327a\u0303o de homens homossexuais e sua sexualidade. Por isso foi ta\u0303o importante para ele ter uma cena de amor em <em>Sebastiane<\/em> (1976). Pela primeira vez em uma sala de cinema, na\u0303o em um teatro porno\u0302 ou em um lugar dedicado ao vanguardismo, foi possi\u0301vel ver uma transa. A homossexualidade na\u0303o era mais um problema como ja\u0301 fora, por exemplo, nos filmes dos anos 1960 e 1970 <em>Domingo maldito<\/em>8 (1971), O criado 9 (1963) e, em menor escala, Nighthawks de Ron Peck, que foi feito dois anos apo\u0301s Sebastiane. Um aspecto muito importante em Sebastiane, e que se encontra em alguns dos Super-8, e\u0301 a dimensa\u0303o homoero\u0301tica do filme. Como o cineasta disse: \u201cO filme foi historicamente importante; nenhum filme tinha se aventurado por aqui. Houve filmes underground, <em>Un chant d\u2019amour<\/em> e <em>Fireworks<\/em>, mas <em>Sebastiane<\/em> estava em um espac\u0327o pu\u0301blico\u201d10. Sebastiane se tornou companheiro de outro ico\u0302nico filme gay, <em>Pink Narcissus<\/em>11 (1971). Se a dimensa\u0303o homoero\u0301tica e\u0301 afirmada, na\u0303o e\u0301 ta\u0303o expli\u0301cita quanto ele gostaria: \u201cEu teria amado se tivesse tido uma verdadeira transa nos meus filmes, eu teria tido um orgasmo. Imagine todos esses adolescentes se masturbando na cama por causa de sua televisa\u0303o porta\u0301til&#8230; \/ &#8230;eu teria como ser mais expli\u0301cito, verdadeiros filmes sobre nossas vidas no aqui e agora\u201d12. Este sentimento inevitavelmente sera\u0301 reforc\u0327ado pelas poli\u0301ticas conservadoras promovidas por Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos. A luta contra o moralismo dessas poli\u0301ticas se tornara\u0301 mais exacerbada quando o ataque a\u0300 crise da Aids (a partir de 1983), acompanhado por uma negac\u0327a\u0303o extraordina\u0301ria e um grande retrocesso social, promover poli\u0301ticas de sau\u0301de pelos conservadores e fana\u0301ticos de todos os lugares. Quando Derek Jarman foi diagnosticado com o HIV, sua milita\u0302ncia aumentou e seria mais proeminente em suas obras, fossem pinturas, filmes ou livros.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 4\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Londres, Soho 1983 ou 1984, na abertura de uma exposic\u0327a\u0303o de Derek Jarman, a multida\u0303o de jovens e novos roma\u0302nticos esta\u0301 em seu melhor, diferentes gamas de <em>socialites<\/em> foram misturadas na exposic\u0327a\u0303o e ofereceram um bom exemplo da estrondosa classe da sociedade brita\u0302nica. A mu\u0301sica dava o tom dos tempos contra a perspectiva sombria da crise da Aids. Neste peri\u0301odo, e devido a\u0300s dificuldades na produc\u0327a\u0303o de seu filme <em>The Angelic Conversation<\/em>, que estava em processo, Derek Jarman fez um curta-metragem, <em>Imagining October<\/em> (1984), que se dedicou a questo\u0303es mais amplas que seu entorno imediato e que continuava a desenvolver a postura de usar filmes caseiros a fim de fazer um longa, como no caso de <em>The Angelic Conversation<\/em>, ou um filme-ensaio, como em <em>Imagining October<\/em>. E\u0301 nesta ocasia\u0303o, enquanto preparava um show no ICA [Institute of Contemporary Arts], que Derek Jarman, com James Mackay, ao transferir o Super-8 para uma fita (VHS), descobriu novas maneiras de ter resultados a partir de filmes caseiros, misturando-os com outras seque\u0302ncias que vieram da observac\u0327a\u0303o e trabalho com os antigos13. A refilmagem das imagens em velocidades diferentes (principalmente a tre\u0302s quadros por segundo, depois editadas em U-matic, antes de entrar em uma fita de 1\u2019 e, em seguida, 35 mm \u2013 para so\u0301 enta\u0303o o trabalho do som comec\u0327ar e ser bastante estruturado se comparado com a imagem improvisada14), a edic\u0327a\u0303o e codificac\u0327a\u0303o em um equipamento de vi\u0301deo e a mistura de sons oferecem alternativas na execuc\u0327a\u0303o do que seria aplicado em seus videoclipes, bem como em seus filmes. Fazer um filme na\u0303o estava mais funcionando com algue\u0301m aferindo e algue\u0301m apoiando, isso tinha acabado, tinha-se que tirar proveito das possibilidades da edic\u0327a\u0303o de vi\u0301deo e da transformac\u0327a\u0303o que poderia ser produzida com a mu\u0301ltipla gama de efeitos que foram criados na e\u0301poca. Promiscuidade e hibridismo se tornaram as regras, na\u0303o era apenas uma questa\u0303o de sexo! Esta mistura geral era para contaminar todas as tende\u0302ncias de seu cinema, e se tornaria um fator-chave na este\u0301tica de <em>The Last of England<\/em> (1989) e <em>The Garden<\/em> (1990). O sonhador, a qualidade oni\u0301rica de seus filmes participam de uma tradic\u0327a\u0303o de vanguarda de cineastas subjetivos como Jean Cocteau, Jean Genet, Kenneth Anger.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 5\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Quando <em>Imagining October<\/em> estava sendo feito, uma greve de mineiros estava acontecendo, a viole\u0302ncia usada pela poli\u0301cia contra os mineiros, tanto quanto a atitude intransigente de Margaret Thatcher ecoa o regime sovie\u0301tico, e a arquitetura monumental sa\u0303o uma evocac\u0327a\u0303o do poder do Impe\u0301rio. \u201cA coisa mais surpreendente para mim do Ocidente foi a arquitetura de Moscou. Eu senti que era muito difi\u0301cil filmar pessoas em Moscou.\u201d Isto evoca a Revoluc\u0327a\u0303o de Outubro, sendo filmada em outubro. Se a primeira parte trata de monumentos, a segunda introduz pessoas e um pintor fazendo uma tela de jovens soldados, enquanto os textos sa\u0303o exibidos ao longo de todo o filme criticando a Inglaterra, tais como:<\/p>\n<p><em>Censura da Capital. Os pro\u0301prios manipuladores manipulados, e na sua loucura procuram revogar todo valor. Tudo. Isto e\u0301 uma merda, mas no\u0301s achamos que voce\u0302 vai gostar<\/em>.15<\/p>\n<p>O cara\u0301ter sombrio do filme antecipa o tom de <em>The Last of England<\/em>, no qual Derek Jarman medita sobre o que se tornou a Londres e a Inglaterra nos anos 1980. Nesse filme, a colagem das fontes sa\u0303o muito diferentes, de filmes caseiros feitos por seu avo\u0302 e seu pai em preto e branco, ou em cores de sua fami\u0301lia ou de filmagem de guerra, para Super-8 transferidos para vi\u0301deo antes de passar para 35 mm, como ele fazia antes com seus videoclipes. O uso do Super-8 foi uma necessidade, \u201cA ca\u0302mera de Super-8 e\u0301 liberdade, a de 35 mm e\u0301 acorrentada pelo dinheiro a\u0300s instituic\u0327o\u0303es\u201d16. O filme na\u0303o tem uma narrativa real, mas momentos em que estamos testemunhando o decli\u0301nio da Inglaterra. A reminisce\u0302ncia do tempo anterior e\u0301 enfatizada pelas seque\u0302ncias de abertura em que vemos Derek Jarman em sua escrivaninha escrevendo em um ambiente oni\u0301rico, rodeado por objetos de arte, naturezas mortas. A\u0300 beira do despertar de uma realidade terri\u0301vel: a Inglaterra vista e moldada por Thatcher. Enquanto fazia este filme, Jarman descobriu ser soropositivo, o que contou em seu livro- dia\u0301rio <em>The Last of England<\/em>. O filme tem algumas cenas provocantes, como a transa entre um jovem nu e um terrorista, cenas assustadoras de pessoas esperando em um cais, nas docas, filmado por quatro ca\u0302meras de Super-817. Ele deu uma qualidade coreogra\u0301fica distinta para essas cenas, tanto quanto nas cenas de danc\u0327a e de casamento. A improvisac\u0327a\u0303o e\u0301 exemplificada no filme e iria encontrar a sua perfeita realizac\u0327a\u0303o na cena do casamento e na cena em que Tilda Swinton rasga seu vestido com uma tesoura.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 6\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>O filme e\u0301 uma ode: \u201c<em>The Last of England<\/em> trabalha com imagem e som, uma linguagem que esta\u0301 mais pro\u0301xima da prosa do que da poesia. Conta sua histo\u0301ria um tanto feliz em imagens silenciosas, em contraste com o cinema no limite da palavra\u201d18. <em>The Last of England<\/em> e\u0301 um um filme avant-garde amplamente distribui\u0301do pelos principais cinemas, e como <em>The Garden<\/em> e <em>Blue<\/em> (1993), chega a uma audie\u0302ncia mais vasta do que se poderia esperar de tal produc\u0327a\u0303o cinematogra\u0301fica. A natureza do trabalho de Jarman foi misturar e colidir ge\u0302neros \u201copostos\u201d de cinema em seus pro\u0301prios filmes, misturando a tradic\u0327a\u0303o do filme de arte no de avant-garde, unindo fragmentos, tornando pu\u0301blico o que e\u0301 privado, mostrando a releva\u0302ncia do i\u0301ntimo nas questo\u0303es sociais. A questa\u0303o da identidade, a irrupc\u0327a\u0303o da poli\u0301tica sexual no nu\u0301cleo de seu filme na\u0303o e\u0301 i\u0301mpar, e\u0301 parte de sua vida, ele era um membro do grupo ativista Outrage. A homossexualidade tinha de ser afirmar na arte e no cinema do establishment brita\u0302nico, tanto quanto a campanha de o\u0301dio contra pessoas com Aids. Vamos ver, por exemplo, membros do Outrage apoiando o rei em <em>Edward II<\/em> (1991). Em <em>The Garden<\/em>, temos a evocac\u0327a\u0303o de ativismo em diferentes cenas do filme celebrando a homossexualidade, tanto quanto atacando a ideologia cato\u0301lica. Isto sera\u0301 mais uma vez destacado em<em> Edward II<\/em>, enquanto a separac\u0327a\u0303o de Galveston e Edward e\u0301 acompanhada por Annie Lennox cantando \u201cEverytime We Said Goodbye\u201d, do Projeto Red Hot &amp; Blue19. Como Mark Nash escreveu: \u201cA poli\u0301tica sexual de Jarman e\u0301 intransigente. A subcultura e a sexualidade que participam de seus filmes na\u0303o sa\u0303o simplesmente \u2018gay\u2019 ou \u2018camp\u2019. Os filmes assumem questo\u0303es marginais da poli\u0301tica sexual, especialmente as noc\u0327o\u0303es de masculinidade, prevendo, antecipando uma mudanc\u0327a na ordem e costumes sociais que seus filmes ta\u0303o apaixonadamente exigem. No entanto, esta apresentac\u0327a\u0303o e celebrac\u0327a\u0303o, esta construc\u0327a\u0303o de uma este\u0301tica subcultural, tambe\u0301m aspira a uma condic\u0327a\u0303o mais geral \u2013 falar para a Inglaterra e para o cinema brita\u0302nico. Trac\u0327a uma direc\u0327a\u0303o criativa alternativa: longe do imperialismo este\u0301tico de Hollywood (seu conservadorismo moral, sua lo\u0301gica narrativa simplista); longe tambe\u0301m do chauvinismo, ainda que com o espi\u0301rito \u2018brita\u0302nico\u2019 de cinema americano do British Film Year\u201d20.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 7\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Com seu cinema, Derek Jarman descortinou novas maneiras de olhar para figuras histo\u0301ricas, dando-lhes um corpo, uma sexualidade, um contexto que tem muitas vezes, para na\u0303o dizer sempre, sido exclui\u0301do, invalidado, negado pela sociedade. Seus filmes resistem contra a tentativa da sociedade normativa de interpretar e produzir uma histo\u0301ria de acordo com a sua visa\u0303o hetero. O cineasta na\u0303o estava preocupado em produzir uma visa\u0303o cli\u0301nica de gays e, nesse sentido, ele pode ser considerado como um dos pais do New Queer Cinema. Ao mesmo tempo, ele e\u0301 uma figura do Romantismo ingle\u0302s do se\u0301culo XX.<\/p>\n<p>Amsterdam 1991, Festival of Lesbian and Gay Film, uma homenagem a Derek Jarman e Ulrike Ottiger. Derek apresentou seus filmes e lanc\u0327ou <em>The Garden<\/em>; ele reconciliou com seu discurso as diferentes tende\u0302ncias e forc\u0327as de oposic\u0327a\u0303o em jogo durante o festival.<\/p>\n<p>Com <em>Blue<\/em> (1993), Derek Jarman ofereceu uma nova maneira de falar sobre a Aids. Como Douglas Crimp disse em 1991: \u201cA Aids na\u0303o existe para ale\u0301m das pra\u0301ticas que a conceituam, a representam e lhe correspondem. Conhecemos a Aids somente atrave\u0301s dessas pra\u0301ticas\u201d21. <em>Blue<\/em> representa uma conquista nesta conceituac\u0327a\u0303o. O filme propo\u0303e uma peculiar experie\u0302ncia imersiva em cor e som, em que a cor azul e\u0301 a u\u0301nica imagem visual concedida ao olhar. Ao mesmo tempo, a riqueza das trilhas sonoras de va\u0301rias camadas, misturando as vozes dos cineastas ou de suas personificac\u0327o\u0303es, o som ambiente, rui\u0301dos&#8230; ecoa uma sinestesia virtual em que na\u0303o teriam qualquer mudanc\u0327a no campo visual, enquanto o som causa nossa perambulac\u0327a\u0303o nas profundezas da cor. Blue22 lida com biografia, Aids, amor, sexualidade, morte. Justapo\u0303e todos os elementos da vida e os filmes de Derek Jarman em uma espe\u0301cie de pec\u0327a de ra\u0301dio, tornando possi\u0301vel imaginar o trabalho como uma instalac\u0327a\u0303o. E\u0301 um trabalho de meditac\u0327a\u0303o, uma assembleia, uma memo\u0301ria.<\/p>\n<p><em>Blue<\/em> transcende a geografia solene dos limites humanos23.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 8\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>A caridade tem permitido ao indiferente parecer se importar e e\u0301 terri\u0301vel para aqueles que dependem dele. Tornou-se um grande nego\u0301cio, pois o governo foge de suas responsabilidades nestes tempos de indiferenc\u0327a. No\u0301s cooperamos com isto, enta\u0303o os ricos e poderosos que nos ferraram uma vez, va\u0303o nos ferrar outra vez e conseguir de ambas as maneiras. Temos sido sempre maltratados, enta\u0303o, se algue\u0301m nos dedica uma simpatia mi\u0301nima, no\u0301s exageramos em nossos agradecimentos24.<\/p>\n<p>Yann Beauvais e\u0301 cineasta, curador e cri\u0301tico independente. Vive no Recife desde 2011, onde fundou com Edson Barros o espac\u0327o cultural B3 (Be\u0302 Cu\u0301bico). Fundador da Light Cone em Paris, em 1982, cooperativa de filmes experimentais e videoarte na Franc\u0327a. U\u0301ltimos filmes: Artificial Poetic (2013) e Schismes (2014). U\u0301ltima publicac\u0327a\u0303o: Ryan Trecartin &#8211; Internet comme mode vie. Gruppen, n\u00b0 9, Paris, 2014. U\u0301ltimas curadorias para B3: Erwin Wurm: video works, Um dia sem artes; Keith Sanborn: duas Instalac\u0327o\u0303es.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Traduc\u0327a\u0303o: Rachel Ades<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. MACKAY, James. The Jarman Award, James MacKay on Derek Jarman.<br \/>\nA exibic\u0327a\u0303o a que James MacKay se refere foi em 1979.<br \/>\nDisponi\u0301vel em: &lt;http:\/\/www.apengine.org\/wp-content\/plugins\/as-pdf\/generate.php?post=1553&gt;<\/p>\n<p>2. Ver videoclipe da mu\u0301sica \u201cThe Queen is Dead\u201d, feito para o Jubileu de Diamante da rainha da Inglaterra por Derek Jarman, com mu\u0301sica do The Smiths.<br \/>\nDisponi\u0301vel em: &lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YS3UMjNUqFM&gt;<\/p>\n<p>3. JARMAN, Derek. Dancing Ledge. London: Quartet Book, 1984. p. 105. 4. JARMAN, Derek. Op. cit., p. 124.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 2\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>4. JARMAN, Derek. Op. cit., p. 124.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>5. RAINS, Tony. Submitting to Sodomy Propositions and Rhetorical Questions about an English Film-maker. In Afterimage, no 12, London, 1985.<\/p>\n<p>6. A Frente de Libertac\u0327a\u0303o Gay foi fundada em 1970<br \/>\n7. O Partido Revoluciona\u0301rio dos Trabalhadores foi um partido trotskista que nos anos 1980 implodiu em diffrentes grupos. Vanessa Redgrave era um si\u0301mbolo quando Lee Drysdale era um membro do partido. Ele estava no set de Jubilee e trabalha ha\u0301 tre\u0302s anos no projeto de Neutron com Derek Jarman.<\/p>\n<p>8. Sunday Bloody Sunday, de John Schlesinger.<br \/>\n9. The Servant, de Joseph Losey<br \/>\n10. JARMAN, Derek. At Your Own Risk: A Saint\u2019s Testament. London: Hutchinson, 1992. p. 73. 11. De James Bidgood.<br \/>\n12. JARMAN, Derek. At Your Own Risk: A Saint\u2019s Testament. London: Hutchinson, 1992. p. 74.<\/p>\n<p>13. Ver MACKAY, James. Op. cit.<\/p>\n<p>14. Sobre The Angelic Conversation, ver JARMAN, Derek. The Last of England. London: Constable, 1987. pp. 145-8.<\/p>\n<p>15. Textos de Imagining October em The Last of England. Op. cit., p. 102. 124<\/p>\n<p>16. JARMAN, Derek. The Last of England. London: Constable, 1987. p. 169.<br \/>\n17. Ca\u0302meras operadas por Derek Jarman, Chris Hugues, Richard Heslop e Cerith Wyn Evans.<\/p>\n<p>18. JARMAN, Derek. The Last of England. London: Constable, 1987. pp. 185-87.<\/p>\n<p>19. The Red Hot era um projeto para conscientizar e levantar fundos para lutar contra o HIV\/AIDS atrave\u0301s de cultura pop e CD.<\/p>\n<div class=\"column\">\n<p>20. NASH, Mark. Innocence and Experience. In Afterimage, no 12, London, 1985.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"column\">\n<p>21. CRIMP, Douglas. Aids: A cultural Analysis Cultural Activism. In October, v. 43. Cambridge: Mit Press, 1987.<\/p>\n<p>22. O texto do filme esta\u0301 publicado em Chroma, A Book of Colour (Jun. 93). London: Century, 1994. 23. Idem, p. 109<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>em portugu\u00eas em \u00a0Cinena \u00e9 liberdade Derek Jarman, organiza\u00e7\u00e3o : Alessandra Casta\u00f1eda, Raphael Fonseca, \u00a0Victor Dias, Rio de Janeiro, Jurubera Produ\u00e7\u00f5es, 2014 Recife, junho 2014 Foi no final dos anos 1970, ou talvez no ini\u0301cio dos 1980, em Paris, em uma e\u0301poca em que era possi\u0301vel encontrar um programa de cinema experimental cotidianamente no Centro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[9,6],"tags":[136,26],"class_list":["post-564","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cineastes","category-ecrits","tag-activism-gay","tag-super-8"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=564"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/564\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1618,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/564\/revisions\/1618"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/yannbeauvais.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}